os crepúsculos enfiam os dedos na minha garganta.
então canto,
entro pelo ventre úmido das árvores,
subo nos galhos secos:
estou em busca do último pássaro.
semeio raios de sol nos canteiros sujos do mundo,
minhas mãos ceifam gotas de orvalho,
rios me circundam,
cachoeiras explodem em meu peito:
tenho uma foz antiga.
é imensa a combustão das vozes:
meus lábios se inclinam dentro da prece.
absorvo o silêncio das grutas:
um lírio branco iluminando o vazio.
olho a tristeza das rosas caminhando entre os lábios da aurora:
deve haver alguma luz nos escombros do amanhã.
quero a graça!
as pequenas coisas envolvendo o meu cansaço,
enquanto descalço a linguagem.
as romãs maduras trazem uma vela acesa na polpa.
arquétipos transfigurados,
meus poços secos anseiam a chuva.
sou uma igreja velando o horizonte:
minhas paredes murmuram canções arcaicas,
cacos umedecidos , mãos trituradas, incenso,
o perfume das velas.
tudo aponta para um jardim possível.
esgotado o sentido do tempo,
rezo ao crepúsculo.
quero os braços levitando no abraço,
os lábios ungindo o instante,
as facas podando a árvore da vida,
os templos sumindo dentro do mistério.
minhas paisagens bombardeadas cantam baixo na lágrima,
doem.
sou uma mesa esperando que cheguem os peregrinos.
os crepúsculos atam rios dentro de mim.
meu corpo arde no encontro.
Sandrio Cândido
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