2 de mar de 2016

I

começou a morrer bem  cedo
antes da bacia entornar o corpo dentro d'água
o chuveiro queimou
a chuva não voltou em dezembro
não soube mais o caminho de molhar

II
a abelha beijou a flor
e não pode encontrar o néctar
a menina entrou nos olhos da lagarta
por isso anda o poeta
tentando colher nas borboletas
o gosto daqueles lábios  
o único que lhe faz tremer o corpo.


25 de fev de 2016


estancadas trago em mim canções
aberto haver deveria a canoa
no chão de joelhos caminho

da noite escolhido
dos oceanos tragado a mística  

beleza alguma há em tudo
do mel a promessa na flor
da borboleta o êxtase na lagarta
 
se vê ao longe uma estrela ouve
em dezembro morrer é maior dor

com espanto a dor canto
viola me fez o tempo passando
idade carpiu da criança a pele

no peito dorme cigarra
do caboclo salmodia é milho
 
dos olhos  monturo chuva limpar
para lá das águas barco pode chegar?
reza em mim um rosário de sabiás


Sândrio Cândido in: MORAR (  em construção)

22 de fev de 2016



La alegría de besarte, Curtis Wiklund
 
 

O amor nem sempre é fácil, comporta detalhes algumas vezes imperceptíveis aos olhos, entretanto essenciais para sustentar uma relação. Das grandes promessas recheadas pela vontade até o momento da viver juntos há um largo período, também esse recheado de momentos lindos e difíceis. O amor tem seus próprios ritos:  Os risos sem motivos, abraços sem razão, o beijo na testa a qualquer hora do dia, as mãos encontradas, melhor dizendo, pelas mãos que se esbarram como se desde muito estivesse a compor a mesma coreografia. 

O amor também dança com os corpos na chuva, entregados na cama, desvendando-se um ao outro no cotidiano.  Esse sim é o grande palco onde a dança do amor acontece, nele os ensaios não valem, pois cada passo vai construindo a própria coreografia. O amor passa pela cartografia dos espasmos, pelos silêncios entrecortados, pelas discussões banais e pelas reconciliações, algumas vezes tardias e feridas.

O amor comporta aprender a dormir juntos, despertar juntos, caminhar um ao lado do outro, cantar a mesma canção,  mesmo sem a presença do outro. O amor passa pelo adoecer juntos, pelo sustentar a lágrima do outro, mas também os sorrisos.  O amor comporta desabar juntos e erguer-se juntos também. É estar em silencio, cada um em sua solidão, não mais desabitada,   mas aquela em cujo silencio podemos sentir a comunhão com aquele que escolhemos para atravessar conosco o deserto da vida, usando uma metáfora da Sophia de Mello Breyner Andresen.

O amor pode ser mesmo esse cair apaixonado, mas grande parte de ele passa pela construção diária e alguns desenhos do Curtis Wiklund  mostram isto ao retratar o  o cotidiano da sua família . Achei tão lindos pela beleza e leveza desse sentimento tão necessário para a humanidade e cuja centralidade é forte nas relações de hoje. A belíssima imagem do dormir juntos cada noite, em outra, a alegria do beijo, em outra simplesmente o silencio, aquela linda imagem do homem carregando a mulher para a cama. Em todas elas a tentativa de mostrar o amor que aparece em cada detalhe daqueles que escolheram estar no coração do outros como apaixonados.

O amor não é mesmo fácil, como todos os grandes sentimentos da vida, mas traz uma alegria e uma leveza capaz de dar sentido a existência humana. Pois é na memória dos momentos vivenciados ao lado de quem amamos que podemos encontrar o fundamento para viver. Ao lado de quem amamos descobrimos as notas para tocar a música da vida. Ao lado de quem amamos descobrimos que podemos voar alto e ter no coração de alguém um ninho para voltar a descansar.

 

11 de dez de 2015

As crianças incandescentes

"Através do teu coração 
passou um barco
Que não pára de seguir sem
ti o seu caminho" 

Sophia de Mello Breyner


dói-me no coração as ruínas da infância
machado beijando o tronco
facão aconchegando os ramos
os primeiros cortes

os dedos machucados teimam em seguir

debaixo do tempo crianças incandescentes gritam
adormecidas na esperança de uma salvação
favos de luz perdidos nos escombros

em busco da flor soterrada nos espelhos
desço aos monturos,
levo em mãos uma lampada desfigurada

é noite por dentro do pensamento
paisagem alguma consegue perdurar
ainda não sei  perdoar o tempo

aqui estou
errante no século,
longo é o trajeto a desnudar

visto-me com a roupa da insônia 
faço do silêncio um barco

filho da época,
nado em busca de um porto
estou a margem  de um corpo ausente

espero as mãos desenfaixarem a boca 
a carne capaz de rasgar a alma.

Sândrio Cândido



17 de nov de 2015

para Júnia Fugimoto  

mamãe, papai,
que saudade é essa que levo dentro de mim?

bendita seja a voz das lavadeiras
lá no fundo do cansanção
rio pequeno grudado no peito
sol quente, lapas grandes
a gente batia as roupas antigas
sem saber que estávamos a lavar o coração

Jequitinhonha, fanado, cansanção
cheiro gostoso de biscoito de goma
acarajé sobre a mesa
café quentinho antes do amanhecer
frango caipira, canjiquinha
chá de amendoim e farofa de andu

canoa velha canoa
traz seus remos outra vez
vem mim ajudar atravessar esse mundão

pra pegar os passarinhos selvagens
armei arapuca na linguagem
trancei palavra por palavra
gastei  a mata de silabas
tragadas pelo meu pensamento
depois deitei debaixo das cagaiteiras
fiquei ouvindo o sabiá
fiz um ninho  na minha garganta
pra aconchegar as andorinhas
casa pequeninha é a que o João de barro
fez dentro do meu coração

garricha não se pode desmanchar a casa
sete anos de maldição
igual quando não tapamos os santos
é tanta coisa neste mundo meu São João
livrai-nos Deus de ficar sem lágrima
quem dera fosse poesia capaz
de devolver -nos o perdão

roça de milho e abóbora
lava mãe, capina pai, borda vovó
folia de reis tá quase chegando
só não esqueçam de olhar a rodagem
pode ser amanhã divagarzinho
fumaça sujando o telhado
ciranda de comadres
compadres fumando cigarro de palha
viola descampando o tempo
feijão no fogão de lenha

bendito seja o rosário
nossa senhora dos homens pretos
não nos deixe faltar o tutu
menina preta do sertão
cá pra nós, flor de laranjeira é tudo
goiaba com  maracujá
saudade deslinhando o peito

a gente não é triste por natureza
é que nascemos com os olhos bestaiados
pelo orvalho que levamos adentro.

Sândrio Cândido


emprestei minha voz para a solidão
andei quilômetros por dentro de mim
quando criança recordo
comia as goiabas com sementes
então perguntava a mamãe
-vai nascer uma árvore dentro de mim?-
ela respondia um sim bonito
com cheiro de mango amadurecendo,
tentei por anos ver essa goiabeira
ainda hoje escrevo buscando
as sementes perdidas aqui dentro.


Sândrio Cândido 

30 de out de 2015

orvalho sobre terra seca

Para  Marcos Paulo ( pequeno príncipe) Kika e Rogério, com carinho 

nascer é uma experiência do coração, uma experiência da beleza. nascemos todos os dias, dizem alguns. sem dúvida o ciclo da vida é um nascer e morrer, tudo pode ser uma metáfora destes dois momentos únicos na existência humana. breve como um raio de luz, grande como o universo! para algumas pessoas o nascimento é uma travessia, uma luta, uma conquista. é sobre um de estes nascimentos que desejo escrever agora.

esperamos tanto pela tua presença! agora o teu sorriso diz-me que valeu a pena. orvalho sobre terra seca, o teu sorriso, sol desabitando a madrugada. nasceste antes, pequeno príncipe, meu pretinho, nasceste bem antes do dia em que  vieste ao mundo, nasceste no coração ( e foram tantos)  a esperar ansioso e com medo. sim, havia medo, o medo de que não viesse. o medo de ocorrer o mesmo que havia passado antes, no entanto, havia a confiança.

o sofrimento, talvez não tenha sido sofrimento, quando se espera uma flor, não importa o suor do trabalho, quando sabemos que estamos a cuidar de uma vida, não importa o tamanho da dor. vieste antes pequeno guerreiro, eu pude ver que tu já estava presente nos olhos da minha irmã deitada sobre aquela cama. ali pude compreender o que é o amor- se bem que já tive várias visitas deste sentimento em minha vida- pude compreender a fragilidade e a grandeza do amor.
 
o amor é uma espera ansiosa, é um cuidar sem saber das certezas, é um ser para o outro, é um abandonar-se pela alegria, pela vida do outro. grande demais, imenso demais, parece, entretanto, em alguns momentos da vida nos é permitido contemplar isso de cerca. o amor também  é sacrifício, algumas vezes, mas sem esse sacrifício que feia a existência, diria um filósofo, que feio uma vida onde não tenha existido a luta, o cansaço, por amor. sem dúvida o amor é muito mais coisas, entretanto, naquele dia, nos olhos da minha irmã, pequeno guerreiro, pude ver o sacrifício, mas também a beleza de estar a espera de uma vida.

havia amor, muito amor nos olhos da minha irmã e do meu cunhado.  naquele corpo debruçado noite e dia na cama, levando dentro de si aquela vida que esperávamos ansiosos. como desejamos  o  passar o tempo para vê-lo. havia esperança e fé. eu que já havia presenciado tantos  discursos,  naquele dia, nos olhos da minha irmã,  pude testemunhar o amor, a fé, a confiança, a esperança.
 
guerreiro, pretinho, príncipe, são tantos os nomes oferecidos a ti, entretanto, o que tu ofereceste a nossa família é maior, ofereceste novamente a alegria de saber que é possível vencer, que é possível alegrar-se depois da dor, que as flores também nascem nas rachaduras, a certeza de que o amor é capaz de suportar os grandes limites da vida humana. ofereceste chuva para dias quentes, flores para um jardim em inverno, orvalho para terra seca. ofereceste esse teu sorriso- que eu ainda não conheço pessoalmente- e dentro do teu sorriso a alegria de saber que a vida venceu, que o amor venceu.  
 
quando nasceu a tua prima, Ana Julia, pude escrever no mesmo dia que o mundo já não era o mesmo, pois havia nascido ela. contigo tive que esperar em silêncio, tive que compreender toda a trajetória da minha irmã, tive que ir sentindo os espaços de alegria que foste abrindo em nossa família e principalmente no coração da Kika e do Rogério. foste para mim uma oração, sim pequeno príncipe,   tu é uma oração, um encontro entre a beleza de esperar e o profundo de amar.

agora que as palavras despertam em mim e sentindo a alegria de poder ser o teu tio, também aqui as escrevo. é um presente para a nossa vida, para a minha vida. hoje, quando sentado pensava na existência de Deus, lembrei de ti e da minha irmã. pois nestes momentos únicos, em que a misericórdia e o amor são mais fortes que a dor, perco as palavras e em silêncio sinto que habito a vida e habitando a vida descubro um mistério que não explico e diante dele apenas faço uma prece. muito obrigado ao sagrado, muito obrigado " pequeno príncipe". não tenho dúvida de que você, a Ana Julia são presentes para a minha vida e para a nossa Família. Bem vindos a vida, esperamos por vocês, obrigado por nascer.

Sândrio Cândido


 
 

28 de out de 2015

quando o sol dobra os olhos
e as frutas começam a cair

coloco-me diante de ti
com a linguagem ajoelhada
e as mãos em silencio

entro na beleza
regresso ao centro do mundo
afago a solidão

habito em prece um coração.

Sândrio Cândido

13 de out de 2015

Íamos

de um lado a outro do mundo.
na certeza de possuir em mãos o segredo
das maças. se ainda houvesse maças
se ainda houvesse a mão
para descer vagarosamente a noite
e afundar
na pulsação firme da vida
até encontrar um último lampejo.
algo úmido, único,
capaz de saciar a sede intransitável.
estranha  a solidão dos místicos
deste século,
sem homens
sem deuses
sem desertos
sem uma verdade por apoiar
nem alguém por encontrar.
está apenas a polpa
e por dentro não existe nada.  
feitos de paisagens,  estradas , oceanos
e de tantos caminhos...
já não são,
já não somos
senão isto:  
inabitados, inacabados,
herdeiros da grande tarefa
destecer o agasalho que serviu
por tantos anos,
prolongar a agonia do outono.

Sândrio Cândido

11 de out de 2015

quando acabou a festa
a música se agasalhou no silencio

enorme é a solidão das violas!
vive na esperança de haver mãos
que as queiram dedilhar...

todo coração é uma ladainha selvagem
e a memória um rosário de monturos!

quando o sagrado fraturou-se
a transcendência ficou sem refúgio
assim nasceu a beleza,
para ser o ventre do vento
soprado desde outra praia.

toda alma sustenta um córrego
capaz de umedecer as horas
desertadas no coração

e os olhos são uma grota
todos esperam um  encontro
para esvaziar o vazio
e suspender  o tempo.

Sândrio Cândido