14/05/2013

Meu desejo se atiça,
Mas isso nada indica.
Um corpo pede
E a alma se perde.
O desejo torna-se desprezo
E a alma torna-se livre.

( Anônimo) 

20/04/2013

contemplação do crepúsculo

os crepúsculos enfiam os dedos na minha garganta.

então canto,
entro pelo ventre úmido das árvores,
subo nos galhos secos:
estou em busca do último pássaro.

semeio raios de sol nos canteiros sujos do mundo,
minhas mãos ceifam gotas de orvalho,
rios me circundam,
cachoeiras explodem em meu peito:
tenho uma foz antiga.

é imensa a combustão das vozes:
meus lábios se inclinam dentro da prece.
absorvo o silêncio das grutas:
um lírio branco iluminando o vazio.

olho a tristeza das rosas caminhando entre os lábios da aurora:
deve haver alguma luz nos escombros do amanhã.

quero a graça!
as pequenas coisas envolvendo o meu cansaço,
enquanto descalço a linguagem.

as romãs maduras trazem uma vela acesa na polpa.

arquétipos transfigurados,
meus poços secos anseiam a chuva.

sou uma igreja velando o horizonte:
minhas paredes murmuram canções arcaicas,
cacos umedecidos , mãos trituradas, incenso,
o perfume das velas.

tudo aponta para um jardim possível.

esgotado o sentido do tempo,
rezo ao crepúsculo.

quero os braços levitando no abraço,
os lábios ungindo o instante,
as facas podando a árvore da vida,
os templos sumindo dentro do mistério.

minhas paisagens bombardeadas cantam baixo na lágrima,
doem.

sou uma mesa esperando que cheguem os peregrinos.

os crepúsculos atam rios dentro de mim.
meu corpo arde no encontro.

Sandrio Cândido 


poema publicado também in:

10/03/2013

Insônia

Em silêncio
desespero-me
desejo as aves na cintura dos anos
estendo as mãos
recolho os ramos secos
adubo os tímpanos metálicos
a linguagem se dobra sob o cansaço.

Ergo-me
faço do corpo um monastério
contemplo os bosques crescendo
a liturgia dos frutos madurando
os cravos no poema
as flores brotando dentro das chagas.

Exercício rude a escrita
catar as palavras desgarradas do limbo
a madrugada devorando meus olhos
o sono degolado debate no chão
é uma prece atravessar a noite
atracar no amanhã.

Despertem senhores de terno
tragam-me tijolos
é preciso enforcar as horas
circundar o curso dos rios
evitar a explosão das correntezas
perigosos são os lábios afluentes.

Artesão das grutas
estanquem os bêbados
nos espelhos a memória destila-se
há demasiada ruína no silêncio
pouco sei da casa
apenas busco
deságuo em ruas infindas
habito-me em estado de escavação.

Sandrio Cândido

06/03/2013

Daniela Delias

Eu moraria em seus olhos

Eu moraria em seus olhos. Olhos-pesos-de-papel deitados sobre os meus em uma carta-poema de delicada caligrafia. Não pela impossibilidade de existir feito coisa que se junta a outras coisas em casas-amálgamas de paredes, retratos e paraísos perdidos. Mas pela saudade de um lugar que me habitasse. Lugar-casa, lugar-coisa, lugar-peso, lugar qualquer de légua percorrida com os pés descalços sobre a bruta pedra dos dias. Eu moraria em seu passo largo e em seu riso contido - também me habitam distâncias e discretas alegrias. Eu sucumbiria às fomes de dentro, às sedes desmedidas. Ofertaria fogueiras e aquela sua dança de línguas aos deuses do outono e seus caprichos. Aliás, eu morreria em seu corpo e sua língua. E nasceria no que em nós resistisse palavra e restasse evidência. Não que prescinda da arte a pele. Não que prescinda da vida o gozo que ampara e dilacera. É que em versos reinvento o seu corpo. E só então deslizo suave entre os escombros.

03/02/2013

A canção de acender velas

I

As paisagens marítimas estão nuas, ausência de firmezas possíveis. ainda não estou acostumado a ti, imensidão azul, posto que não sou do teu espaço, sou um peregrino dos bosques. Em Minas não são de águas as passagens, mas de estradas imersas na poeira. Tu és estranho à mim, és um estrangeiro em mim. Não buscarei em ti os lírios que desejo, porque em ti encontrei tempestades, quartos náufragos, mãos boiando no vazio. Desconheço a calma dos teus dias serenos, conheço apenas a volúpia das tuas ondas possuindo os corpos, desmanchando teares. Ainda prefiro as chuvas, os rios lentos descendo as montanhas, as bocas fechando-se sobre os poços.Tenho uma alma telúrica, acostumada a desertos. É um mistério os teus cabelos aquáticos ondulando os meus dedos melancólicos, enquanto perdura o ofício, decapitar a memória. 


19/12/2012

Retrospectiva

Enquanto sangra a ferida
me abrigo nos coágulos
as mãos meditam a solidão
catando vermes
a língua despe-se da fonte.
Estranha leveza
o sorriso
é tão inútil crer no inútil.
Deserdo-me do horizonte
desisto de costurar casacos
não mais arrumo a mala
nada carrego nos ombros
eu continuo a pesar em mim.
Não preciso buscar a chave
a porta não espera ser aberta
é inútil estar na solidão
o deserto, miragem
silêncio algum rasga o cansaço.
Tudo morreu em mim
jardins apodreceram
os amigos partiram
emoldurados ressurgem.
Crianças descalças
gemem em meu sopro
espelhos me olham tristes
os olhos marítimos escureceram
abrigando estrelas sacrificadas.
Também fiquei dependurado
junto as fotografias
enforcado em alguma gaveta.
Estranha possibilidade
o amor
suplico-lhe
devolva os lampiões da infância
é urgente que eu me encontre.

Sandrio Cândido 

23/11/2012

É inútil acordar as palavras

É tarde
nada diz-me as janelas
fecharam-se mim todas as portas
fez-se a escuridão
desconheço os homens
aos poucos eles se dissolveram
transmudaram-se em maquinas
perderam o caminho do coração.
Sou estrangeiro em nossa época
busco exílio na beleza
mas ela foi bombardeada
em seu lugar
o rio de Heráclito cresceu
invadiu os campos de rosas.
Inovar, porque?
A natureza está muda,
a ciência não me salva da morte
os deuses, inúteis!
Secou todas  as folhas das luzes
eu porém fiquei
habitando o ventre do desespero.
Sou apenas um peregrino
conheço as paisagens devastadas
elas naufragaram dentro de mim .
Olhos frios alcançam minha estrada
não sei falar sobre o mundo
dizer para que?
Amanhã será inútil acordar as palavras
hoje também,
os barcos não podem atravessá-las
nem pianos, nem rosas
apenas as metáforas secas
cadáveres expostos esperando ser dissecados.
Eu quero apenas ler poesia
é possível doutor?
já não chove dentro do poema
não há luz...
Entretanto
ainda ando na praia,
vago em busca de um farol
espero alguém acender o fósforo
dissolver o escuro século.
Desejo uma barca dentro da beleza.

Sandrio Cândido

10/11/2012

Itinerário

Guardou os pássaros na gaveta
explodiu todos
a mão sobre as partículas azuis
desnudou-lhe.
Sentada no espelho
regressou à inocência dos pianos
pairando levemente no interior
entregou-se a solidão
levitando no sonho de um amanhã.
Ferozmente
rompeu os lacres da esperança
depôs a manta de cactos.
Cravou os dentes no útero
abortando a gestação dos passos.
Derramou-se pelas bordas da aurora
contemplando o céu
as estrelas não existem
ainda assim
ninguém atreverá-se a negar
quão belo é o seu  brilho
os corpos exalam o perfume
das rosas que nunca floresceram.
ontem
os dedos do silêncio
galgaram os violinos interiores
a música tem fome de pão
incrível graça de habitar o presente
na sombra cadente dos abraços.

Sandrio Cândido

11/10/2012

Liturgia do exílio

Há uma estrada irrompendo no encontro
anunciando a aurora
uma aurora além de toda aurora
uma possibilidade aberta ao infinito.
Há uma porta fechada no poema
as chaves perdidas no rio
as fontes sumindo no tempo.
Há uma mesa colocada no silêncio
uma cadeira vazia
uma flauta enterrada no peito.
Há pássaros morrendo no canto
uma barca indo e vindo
levando os mortos
atravessando o silêncio dos vivos.
Há malas vazias 
paisagens áridas habitando os olhos
rios secos 
mãos escavando a solidão. 
Há rostos ardendo na saudade 
incendiando paisagens ausentes
apodrecendo dentro dos retratos.
Há homens habitando as pedras 
esperando a chuva
bater levemente as gotas salgadas 
sobre os seus olhos petrificados 
eles agacham o corpo 
afogam a voz
dobram os joelhos no silêncio 
aquecidos nas grutas interiores 
afagam o cansaço do mundo 
acendem um círio na eternidade. 

Sandrio Cândido 

30/09/2012

Tereza

Os dedos molhados na luz
escavam a pedra de sal no coração
abre fendas no espelho calcinado 
em busca da fonte.
Existe uma porta em cada silêncio
uma janela onde pousa a ave branca 
flores de arame guardam a paisagem 
rosas em chamas trancam a passagem. 
Nas pontes escorregadias 
desliza o nome pronunciado no bosque 
plantado dentro da fome. 
Atravesso com os passos cansados 
a praia do silêncio
estendo as mãos feridas 
escavo
dentro da pedra existe um lírio branco  
dentro dos olhos uma estrada esquecida. 
As palavras gravidas semeiam lâmpadas  
desejam parir um caminho 
arder a solidão em outra solidão
fazer crescer um jardim por dentro da fome.

Sandrio Cândido