07/02/2014

anotações cotidianas ( I)

trago o horizonte diluído nas brumas grafadas em meus olhos- só tenho sonhos para oferecer de alimento.

Aqui na rua de casa as árvores estão floridas, faz muito calor, mas as árvores resistem esplendidas, parecendo desafiar o cinza da cidade.

 Essa semana tomei chuva quando voltava da biblioteca e trazia nas mãos o livro, o amor no tempos do cólera, era previsão, porque o amor é uma tempestade afagando os corações.

Minha prima teve uma filha linda, dá gosto de ver, porque as duas juntas parecem perder se em um tempo diferente, um tempo de epifanias, quando nem mesmo tempo há, somente a doce presença disto que chamam amor. Eu sinto que ela aprendeu o significado da vida, tão simples, um gesto apenas.

Ando Muito saudoso estes últimos dias, pior é que não tenho saudades de algo que foi, tenho saudades mesmo é daquilo que ficou na promessa.

Olho a árvore florida lá na rua e penso: Só tenho sonhos para ofertar, mas em cada sonho eu caminho junto aos meus amigos, de mãos dadas, em busca do abrigo. Sou um homem solitário, mas existo para ser oferta  aos meus amigos.
 
Sandrio Cândido

05/02/2014

sobre palavras e mangabas

(foto: Artur Corumba, Flickr/ CC BY-NC-AS 2.0)
 

quando eu era criança gostava muito de comer mangaba - é uma fruta que dá entre os eucaliptos no interior de Minas Gerais- o sabor doce, a água escorrendo por entre os dedos, aquela coisa infantil de ficar horas procurando as frutas caídas em noites interiores. não era apenas as mangabas, mas todo o ritual que havia nelas.

hoje fiquei pensando que escrever tem um pouco disto: esperar que a fruta caia durante a noite, demorar horas buscando no chão a fruta boa, uma procura pelas coisas inúteis, pelos pequenos prazeres, como degustar uma mangaba ou uma manga rosa dependurada no galho mais alto.

assim como as mangabas, há palavras machucadas, que não cabem no poema, mas que ficam lá forrando o chão, até se transformar em adubo, para fazer brotar outros árvores cheinhos de palavras.

eu ainda sou aquela criança catando mangabas só para tentar descobrir alguma beleza nas chapadas tristes que chamo de vida.
 
Sandrio Cândido

25/11/2013

o peito
uma morada de maribondos
algo assim

inútil desenfaixar o tempo
não há muito a buscar dentro da névoa
o amor talvez possa acender a criança

tão distante os olhos
náufragos mudos em uma esperança
poluídos pelo horizonte
monturo dos séculos
folhas verdes cobertas por teias de aranha

não sei porque habito o mundo
nada é tão singelo como ouvir a manhã
quando os pássaros ferem o silêncio
com as suas gargantas irmanadas aos deuses

estive sempre em estado de parto
grávido das silabas
estou farto de parir palavras

é inútil a vida, mas
ainda insisto no cultivo das roseiras
escavo barcas no centro da morte.

Sandrio Cândido 

03/07/2013

vocação

eu te chamei quando estava debaixo da videira
estavam verdes as pastagens
os rios iam e viam pelos nossos corpos
tudo era belo.

hoje as chuvas cessaram
a noite desceu aos teus olhos enclausurados
retirei as vestes da tua oração
agora é possível olhar as cinzas
resto do paraíso.

eu sei o que tentas dizer com este teu grito,
é muito frio onde tu repousa a cabeça
o teu corpo rasgado clama pelas minhas mãos
ninguém compreendeu as tuas silabas feridas.

eu te chamei para isto,
porque o machado precisa de galhos
e tu estavas por se podado
porque desde antes tu foste a oferenda necessária.

quando as figueiras ainda cresciam
e os sinos costuravam o tempo dos peregrinos
eu te chamei para seres um bambu
por onde escorreriam as minhas lágrimas.

sandrio cândido

31/05/2013

Infância

há canções mortas grudadas no corpo
domingo nunca mais.

as roupas sujas de barro
araras, andorinhas, canários
fios elétricos cantando na solidão.

as aroeiras cresceram na ausência
seus galhos tortos ferindo os abraços.

as grotas invadindo o amor,
estranha saudade costurando a existência
os arames farpados esticados na linguagem.

mangas maduras esperando serem colhidas
mas outro é o alimento dos olhos.

aconteço dentro do suicídio cotidiano
os cadáveres gritam por dentro da angústia
estou por ser engolido pela fome.

Sandrio cândido 


14/05/2013

Meu desejo se atiça,
Mas isso nada indica.
Um corpo pede
E a alma se perde.
O desejo torna-se desprezo
E a alma torna-se livre.

( Anônimo) 

20/04/2013

contemplação do crepúsculo

os crepúsculos enfiam os dedos na minha garganta.

então canto,
entro pelo ventre úmido das árvores,
subo nos galhos secos:
estou em busca do último pássaro.

semeio raios de sol nos canteiros sujos do mundo,
minhas mãos ceifam gotas de orvalho,
rios me circundam,
cachoeiras explodem em meu peito:
tenho uma foz antiga.

é imensa a combustão das vozes:
meus lábios se inclinam dentro da prece.
absorvo o silêncio das grutas:
um lírio branco iluminando o vazio.

olho a tristeza das rosas caminhando entre os lábios da aurora:
deve haver alguma luz nos escombros do amanhã.

quero a graça!
as pequenas coisas envolvendo o meu cansaço,
enquanto descalço a linguagem.

as romãs maduras trazem uma vela acesa na polpa.

arquétipos transfigurados,
meus poços secos anseiam a chuva.

sou uma igreja velando o horizonte:
minhas paredes murmuram canções arcaicas,
cacos umedecidos , mãos trituradas, incenso,
o perfume das velas.

tudo aponta para um jardim possível.

esgotado o sentido do tempo,
rezo ao crepúsculo.

quero os braços levitando no abraço,
os lábios ungindo o instante,
as facas podando a árvore da vida,
os templos sumindo dentro do mistério.

minhas paisagens bombardeadas cantam baixo na lágrima,
doem.

sou uma mesa esperando que cheguem os peregrinos.

os crepúsculos atam rios dentro de mim.
meu corpo arde no encontro.

Sandrio Cândido 


poema publicado também in:

10/03/2013

Insônia

Em silêncio
desespero-me
desejo as aves na cintura dos anos
estendo as mãos
recolho os ramos secos
adubo os tímpanos metálicos
a linguagem se dobra sob o cansaço.

Ergo-me
faço do corpo um monastério
contemplo os bosques crescendo
a liturgia dos frutos madurando
os cravos no poema
as flores brotando dentro das chagas.

Exercício rude a escrita
catar as palavras desgarradas do limbo
a madrugada devorando meus olhos
o sono degolado debate no chão
é uma prece atravessar a noite
atracar no amanhã.

Despertem senhores de terno
tragam-me tijolos
é preciso enforcar as horas
circundar o curso dos rios
evitar a explosão das correntezas
perigosos são os lábios afluentes.

Artesão das grutas
estanquem os bêbados
nos espelhos a memória destila-se
há demasiada ruína no silêncio
pouco sei da casa
apenas busco
deságuo em ruas infindas
habito-me em estado de escavação.

Sandrio Cândido

06/03/2013

Daniela Delias

Eu moraria em seus olhos

Eu moraria em seus olhos. Olhos-pesos-de-papel deitados sobre os meus em uma carta-poema de delicada caligrafia. Não pela impossibilidade de existir feito coisa que se junta a outras coisas em casas-amálgamas de paredes, retratos e paraísos perdidos. Mas pela saudade de um lugar que me habitasse. Lugar-casa, lugar-coisa, lugar-peso, lugar qualquer de légua percorrida com os pés descalços sobre a bruta pedra dos dias. Eu moraria em seu passo largo e em seu riso contido - também me habitam distâncias e discretas alegrias. Eu sucumbiria às fomes de dentro, às sedes desmedidas. Ofertaria fogueiras e aquela sua dança de línguas aos deuses do outono e seus caprichos. Aliás, eu morreria em seu corpo e sua língua. E nasceria no que em nós resistisse palavra e restasse evidência. Não que prescinda da arte a pele. Não que prescinda da vida o gozo que ampara e dilacera. É que em versos reinvento o seu corpo. E só então deslizo suave entre os escombros.

03/02/2013

A canção de acender velas

I

As paisagens marítimas estão nuas, ausência de firmezas possíveis. ainda não estou acostumado a ti, imensidão azul, posto que não sou do teu espaço, sou um peregrino dos bosques. Em Minas não são de águas as passagens, mas de estradas imersas na poeira. Tu és estranho à mim, és um estrangeiro em mim. Não buscarei em ti os lírios que desejo, porque em ti encontrei tempestades, quartos náufragos, mãos boiando no vazio. Desconheço a calma dos teus dias serenos, conheço apenas a volúpia das tuas ondas possuindo os corpos, desmanchando teares. Ainda prefiro as chuvas, os rios lentos descendo as montanhas, as bocas fechando-se sobre os poços.Tenho uma alma telúrica, acostumada a desertos. É um mistério os teus cabelos aquáticos ondulando os meus dedos melancólicos, enquanto perdura o ofício, decapitar a memória.