6 de jul de 2010

Caligrafia bailarina.

Grafei com carvão, em uma rocha, a margem do rio Jordão: “Não haverá futuro, nunca houve, tudo é passado e presente e o único tempo que nos pertence é escondido a sombra da memória e dos olhos fundos que muito observou o passar das estações.”
Grafei como se algo procurasse se libertar e talvez sempre haja algo procurando a liberdade que está em nosso interior. Grafei no olhar de uma criança e lá permaneceu na esperança do termino do exílio que se encontrava o homem que profetizou o fim. Suas palavras precisam ser ouvidas antes que acabem os versos. Este homem permanece no passado, exilado no tempo vivido. Em um tempo de imagens e vozes roucas.mas suas palavras ainda insistem em permanecer bailando frente aos nossos olhos.
Grafei no instante e na estante. Quando acabei, contemplei a caligrafia, olhei o relógio, olhei os ponteiros, negros como o carvão, eles marcavam zero horas. Sempre marca zero hora, mas por medo de não sabermos começar inventamos, horas e horas, dias, meses, anos. Inventamos um tempo que não existe que sempre perdemos, mesmo quando marcado. Era zero hora, tocou o sino da sé, abriu o semáforo da avenida são João, quando foi que fecharam os semáforos das avenidas cobertas de cinzas?nossas avenidas, intransitaveis avenidas.
O poema também fechou, acabou. Quando pensei iniciar, estava acabando, distanciamos do inicio para chegarmos ao fim, mas o fim retorna o inicio. Porque fugir ao tempo primário se o fim é inevitável?
Acompanhei a solidão até que ela se aproximasse a seu próprio abismo, era tarde, nada mais faltava e o vazio insistia em perdurar, restou-me apenas grafar. E eu grafei, estranha caligrafia, bailarina caligrafia.


sandrio cândido.

11 comentários:

Flávia Diniz. disse...

'Porque fugir ao tempo primário se o fim é inevitável? '

Perfeito

Bom dia

Dois Rios disse...

Sândrio querido,

Que primor! Que beleza de reflexão sobre o tempo! Até o título me tocou fundo.

Creio que passamos a vida grafando os nossos instantes à carvão, na tentativa de vencer um tempo "que não existe que sempre perdemos, mesmo quando marcado."

Beijos encantados,
Inês

IVANCEZAR disse...

Voce honrou aos Deuses ...
Gestou um texto precioso
Parabéns, receba meus aplausos!

Insana disse...

que belo poema.. que ess~emcia pura..

bjs
Insana

Lídia Borges disse...

Na caligrafia a grafia de sentimentos salpicados de ausência.

Bom texto!

Janita disse...

Soberbo texto, amigo Poeta. Reflexão profunda sobre aquilo que tentamos deixar grafado no tempo e que com o tempo nos foge.
Mas, hoje, a minha missão aqui é pedirte que grafes o meu nome no teu coração e me aguardes até Setembro...
Fica bem, meu jovem e querido amigo e cuida bem de ti.
Janita

Flávia Diniz. disse...

Também gosto muito dele

Boa noite

Nadine Granad disse...

Sandrio:

Linda descrição do blog!
Mais linda ainda toda a sensibilidade a exalar da alma e da rosa ;)


Abraços carinhosos =)

Lara Amaral disse...

O que grafamos pelos locais onde passamos, dentro das pessoas que nos marcaram, é quase impossível de se apagar e de não se reviver a cada lembrança que leva à releitura.

Beijo.

Maria disse...

Excelente, adorei!
Aproveite ao máximo o fim de semana, sorria para a Vida e ela sorrirá também!

"O sorriso enriquece os recebedores sem empobrecer os doadores." (Mario Quintana)

Bjs do tamanho do infinito
Maria

Juliana Carla disse...

Sandrio,

Escrever o passado... Por que não escrever o futuro? É um ótimo poeta para morrer entre rochas.

Bjuxxx e xerooo amigo.