18 de mar de 2011

Possibilidade.

                                                                        A solidão é uma vírgula no meio de duas palavras.
                                                                                      Cah..

Ontem de manhã o vento dispersou os papeis que estavam sob a mesa, levantei me para colher do chão os papeis como quem tenta colher uma rosa. Com medo dos espinhos e eles estavam lá, eles sempre estão. No meu caso os espinhos são as lembranças que ao tocar os meus olhos inevitavelmente transmuta em lágrima,mas que quando se esconde em mim transforma-se em poemas que os olhares há muito já havia escrito.Sabe como é não fiz o que devia ter feito, declarei-me apenas em poemas escritos na poeira,veio o vento e os levou e o pior do amor não é perder mas não ter se dado a chance de tentar.O pior é ter ficado apenas na possibilidade do beijo e nunca saber se o beijo poderia acontecer. 
Algumas vezes a solidão causa medo, este estranho sentimento feito de imagens captadas durante o curso da existência pela maquina do olhar, mas a solidão na verdade é uma fuga, escrever pode ser uma fuga, porém quando se escreve voltamos para nós mesmos e dai não conseguimos fugir, apenas nos manter na superfície pois se fomos ao fundo teremos belos poemas, mas teremos também a consciência de nossa fragilidade. Escrever é se recriar, apesar das possibilidades de não sermos, nós somos e isto é o que importa para o universo da poesia. Mas o que somos,  a imagem grotesca que construirmos na nossa realidade ou a imagem que nossos poemas fazem de nós? talvez as duas coisas sejam apenas uma, porque  escrever é criar vidas possíveis.A dimensão entre o real e o imaginário é mínima.
Penso que o amor é associado a tudo o que fazemos, tanto este amor que não aconteceu na realidade, mas que o poeta imagina, quanto o amor que tem sua realização plena na poesia. Ao escrever mergulho no mundo mas com a capa dos meus sentimentos, olho  o mundo mas vejo a partir do meu olhar de poeta,religioso e solitário( ninguém escapa da solidão). Mas a solidão não é isolamento. Solidão é saber que quando vemos algo, somente nós o percebemos desta forma e que mesmo se alguem o perceba ainda será nosso o mérito de ter percebido naquele momento e  lugar o objeto percebido, ou seja a solidão é antes o olhar único que temos para aquilo que nos norteiam. Uma vez quando eu escrevi me disseram que eu era solitário e confesso que amo a solidão, sem ela eu não seria eu, seria a copia do que o mundo me pede para ser( e hoje há tantos assim que se transmuta no que a mídia deseja que eles sejam, meros consumidores que não quem pensar, cumprir a difícil porem saborosa missão de pensar o mundo.
Volto a epígrafe da cah que já diz toda a essência do homem solitário, somos uma vírgula que temos como missão pensar, o ato de pensar é na verdade o que liga nossa vontade aos atos, o que nos faz humanos.Pensar é sair da Tabula da salvação e ir além dos mundos que conhecemos, ir para as possibilidades de ser o que sabemos não poder ser. Talvez a comodidade seja boa mas não ajuda em nada, a solidão( o pensar só) ajuda. Afinal navegar é preciso, viver não é preciso já diz o nosso poeta maior Fernando pessoa.

P.S Obrigado Janita pelo apoio na vida religiosa,
obrigado Patrícia lara por seu tão presente mesmo distante.
A você Camila heloise(cah) por escrever tão bem.
Obrigado Camila lourenço por seu tão meiga.
Obrigado escafandrista por dizer palavras tão simpáticas a mim simples humano.
Obrigado a todos que passaram por aqui.

Sandrio cândido.

9 comentários:

Camila Lourenço disse...

Quando eu acho que não, você vem e se supera!
CA RA CA!!!!

Vc é tão fofo! Se diz solitário mas já me salvou tantas vezes da solidão. E olha que nem foi conversando diretamente comigo, foi estando lá,presente, no silêncio ou nas palavras!

Ah Sandrio...obrigada por existir na minha vida,mesmo que seja somente através das visitas em meu blog.

E obrigada por ter me incluido na lista das pessoas que vc agradeceu. São pessoas como vc que me fazem ter de novo, uma baita fé na vida.

Um beijo, querido pensador!

Camila Lourenço disse...

ah, e só pra constar: Esse foi o melhor texto que já li seu.

Ele vai lá no fundo e obriga a gente a mergulhar com ele.

Amei!

Ana Alice disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cáh disse...

Em primeiro lugar...

Sândrio, vc foi muito doce ao falar de mim e na maneira como falou! Saiba que eu agradeço de todo meu coração. Conhece aquela frase que diz que 'carinhos na alma salvam o dia'? Pois é, teu carinho me salvou hj.

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"No meu caso os espinhos são as lembranças que ao tocar os meus olhos inevitavelmente transmuta em lágrima"
É uma tarefa difícil aprender a não deixar as coisas virarem espinhos em nós, machucam somente a nós mesmos afinal...
Já escutou a história da Ostra? Que ela transforma seus problemas em pérolas? Porque a areia entra nela e se transforma?
Mas, pra que ter pérola? 'Ostra feliz não produz pérola' como diria Rubem Alves.


" Escrever é se recriar, apesar das possibilidades de não sermos, nós somos e isto é o que importa para o universo da poesia. Mas o que somos, a imagem grotesca que construirmos na nossa realidade ou a imagem que nossos poemas fazem de nós? talvez as duas coisas sejam apenas uma, porque escrever é criar vidas possíveis.A dimensão entre o real e o imaginário é mínima".

Isto foi de uma sensibilidade tamanha! Até hj ninguem conseguiu me explicar isso de uma forma tão bonita... é como se vc olhasse para os textos sem olhos de cobrança, e como se sonhasse sem medo de acordar...


"Talvez a comodidade seja boa mas não ajuda em nada, a solidão..."

exatamente!

Do mais...
Meu beijo, meu abraço, meu carinho e meu respeito!

Ana Alice disse...

Muito muito muito lindo!
Você explicou tudo de uma forma incrível sobre a solidão, sobre o que acontece com a gente por dentro.

Beijos

Fernand's disse...

"a solidão às vezes dói mesmo.
mas temos a opção nos encontramos
com a gente mesmo.

é uma festa.
aí vira solitude".



bjsmeus

IVANCEZAR disse...

E as palavras - grafadas ou verbalizadas - podem ser espinhos ou flores . Em qualquer caso, diversidades de um mesmo jardim , vivo e dinâmico....

A Escafandrista disse...

Vc merece as palavras mais doces...


P.S.: adorei a frase "declarei-me apenas em poemas escritos na poeira"...

E tudo o mais vai-se com o vento ou com o tempo.

Beijos, querido.

Daíse disse...

Amei o teu jeito de escrever!
É simplesmente contagiante!!!

Bjo!