5 de ago de 2011

O poema asfáltico

Vendo as  pedras que sonhas sozinhas no mesmo lugar
Raul seixas 
                         I
Debruço-me sobre a terra , descubro que
Já não é terra.É cal e pedra, areia e cimento.
Toco com as minhas mãos cadente de prece
Vejo o sangue esvair entre os dedos...

De repente vejo palavras solvidas no cal
Sem tempo de salva-las, vejo as ir abaixo
Virar asfalto para os motores agonizados
No som metálico da modernidade embebida.

Enlaça-me as entranhas da carne asfáltica
Endureço.Nenhuma rosa ousa quebrar a crosta...
Sinto-me ser paisagem cinza com toque azul
Pano de fundo da caótica metrópole.

Não há profeta. O teto já não é de pipas
Desenha-se o quadro de um geração esmiuçada
Como se não houvesse utopias.
Todos os sonhos sentem se desgastados.
                   II

Na vegetação de pedras erguidas o poeta
Parece contemplar a imagem primeira
Aquela que perdura em seu olhar
_Longe dos Estáticos  homens
Que aguardam pasmos a essência perdida.

O poeta saca do bolso uma lamina afiada
Começa a perfurar o asfalto quente
_É meio dia.
Os perambulantes exclamam pasmos
Mas um louco para o hospício da filosofia.

A frente um padeiro reconhece o cheiro
É pão. O doceiro diz-é doce-
A jardineira sabe- é margaridas e lírios-
O poeta entende que sua lamina desenterra
Os vocábulos perdidos na palavra asfáltica.

Continua com pregos, já não está só
Junto a ele outros já começam a cavar
Ouve-se o som dos sinos
Que já não anuncia a saudade nostálgica
Mas a liberdade prometida na possibilidade.

Sandrio Cândido
     

11 comentários:

Renata disse...

Só mesmo um poeta sonhador em sua sensibilidade, pra tirar do asfalto e da dureza da vida uma flor!

Analuz disse...

Que loucura boa esta: pensar-se um poeta!

Beijinho cúmplice, Sandrio!

Sandrio cândido. disse...

Obrigado renata. sonhador eu sou, mesmo que por vezes o sonho detenha se na fragilidade da vida.

Davi Machado disse...

"No som metálico da modernidade embebida."

Creio que bons poemas são assim como este.

abraços!

Ana Morais disse...

Só a sua poesia para me fazer arrancar o barulho do cotidiano de uma forma tão leve...

Um beijo.

Luciana Marinho disse...

sandrio,

grata pela visita ao máquina lírica e por, através dela, me deixar a pista para chegar aqui. gostei muito da sensibilidade que emana de teus escritos. conheces o poeta português daniel faria? teve uma vida breve e nos deixou uma obra belíssima. era seminarista.

um abraço!

dade amorim disse...

Sensibilidade e fantasia se enlaçam diante do asfalto.
Abraço, Sandrio.

Juliana Lira disse...

Rapaz! Fazer poema de asfalto?
Que beleza é ser poeta... Quando eu crescer quero ser igual a vc!

Milhoes de beijos

Concha Rousia disse...

Sandrio: a tua poesia me leva a viver no ser coletivo, o mundo se vai afastando de nosso ser coletivo, o poeta tem que abrir os canais para essa concessão. Acho épicos os teus textos e desfruto de te ler, grata por tua presença, abraços.

A Escafandrista disse...

Palavras tão bem escolhidas na sensibilidade de sempre. BJs.

Fernanda Fraga disse...

Magnifico meu caro.

Do sertão das terras áridas e quentes, a flor poderia brotar.

Um beijo