11 de ago de 2011

Vocábulos Aridos

O sertão é aqui em meu coração diluído
Junto  a poeira que colore   meus vitrais.
Sim é talvez aqui onde descansa a saudade
Do rio que cortava os mapas da cidade.

A gramática construída com os vocábulos secos
Onde o  cerrado e a catinga são poemas
Que guardam a esperança cabocla
Da chuva que faz nascer alguma semente.

Perdura nos carpideiros olhos da viúva
A carne ainda quente do marido falecido
Empírica prova de que a morte é terra
Cobrindo ossos de uma verdade antiga.

A terra é lar de memórias.
Sempre guarda a geração que antecede
O instante onde os fatos tendem a se fazer
Obra esquecida no museu do campo.

O sertão é caminho de mulheres sofridas
Que carregam na cabeça cestos de palha.
São lágrimas de quem enxergou o idílio
Mas perdeu-se na paisagem empoeirada.

O sertão é promessa grafada em prece
É reza que escapa aos ouvidos já cansados
É lúdica beleza para olhos sensíveis
É poema feitos por mãos calejadas.

O sertão é mar- longínqua pátria de retirantes 
Então todo mar é sertão.
Alias chego a previsível conclusão de que a vida
É também um sertão desfeito em horas
Carregadas sôfregas pelo caixeiro homem.

Sandrio Cândido 

14 comentários:

Nina Pilar disse...

"A terra é lar de memórias."
em tua travessia encontramos o lar da saudade, a razão do clarão da lua, a resposta do sol pra brilhar tão quente!
quanta poesia derramas, qta saudades depositas no peito, qtas lembranças carregas dentro dos olhos,quanta beleza em verso...nos mostra em tua poesia perdendo-se em paineis, vitrais, onde a nossa memória alcançar dobra o verso.
lindo demais, estou ainda emociona.

Celso Mendes disse...

A aridez do sertão inspira duras e cruas palavras, onde a morte não causa espanto e se integra à terra com muita naturalidade. Semente.

Belo texto, Sandrio.

abraço.

нєllєи Cαяoliиє disse...

"O sertão é mar- longínqua pátria de retirantes
Então todo mar é sertão."
Sandrio,noto que sempre que entro aqui,seu encanto nunca acaba para com as palavras!
Simplesmente belíssimo poema!
Senti imeeensas saudades daqui,estive ausente do blog por motivos pessoais,mas estou voltando devagar!
Espero que tudo esteja bem por ai!
Um beijo e um ótimo fim de semana!

Davi Machado disse...

bonito poema de imagem singela.
imagino um deserto inteiro...

Juliana Carla disse...

Olá Sandrio!

Quanto tempo. Como vai, querido?

Os seus versos me fizeram lembrar os tempos de colégio; em especial de aulas de geografia/ português/ literatura.

Quando eu vi pela primeira vez o chão de um sertão, fiquei incrédula. Depois, nos versos de João Cabral de Melo Neto, estarrecida. No filme, de Zelito Viana, esperança.

Bjuxxx e xeroo

Luciana Marinho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana Marinho disse...

às vezes, é deserto e árido o chão de outras terras no interior onde não se pisa, se ilumina.

Concha Rousia disse...

É assim, como o sertão é pleno de vida e de memória, assim pleno de via é teu poetar, profundo lirismo que sempre me apraze ler, abraços, Concha

Luciana Marinho disse...

que beleza de sentimento da terra enquanto memória e segredo de nossos ancestrais:

"A terra é lar de memórias.
Sempre guarda a geração que antecede".

amo visões com esse espírito de reverência.

muito bonito!

R.D.S. disse...

muito bonito...

Graça Pires disse...

O sertão é o coração de quem sabe transformar a dureza em ternura...
Um belopoema!
Beijos.

Carla Diacov disse...

ave, sandrio!

A. disse...

Belo Poema!... Bela homenagem que o Sertão lhe saberá, concerteza, agradecer... sendo-o e nunca deixando de o ser!...




Abraço

Juliana Lira disse...

Gosto da beleza que encontro aqui.

Milhoes de beijos