9 de set de 2011

Dos relógios que dançam ao meio dia

A Mar Becker 

Sangra os lábios pálidos da mulher que escreve
Numa imitação da vida que esboça a morte
Revestida com o traje das palavras
Longos ventos de orações subordinadas
Que assopram o barco atracado ao cais
Balançando o norte que desejamos
Sobram-nos apenas as brumas da solidão.

Ergue se construções no corpo cicatrizado
Feridas que o tempo refez a laminas
Noturnos beijos de notas encardenadas
Rostos comprimidos no olhar para trás
Desfeito no puro verso da criança em prece
Onde o sinal da cruz lhe diz o pasmo
De saber apenas habitar um universo.

Uma legião de forca espera acomodada
Que saibamos despir o que já não fala
Aos que buscam o sentido da jornada.
Trazem em seus bolsos que são lapides
Os longos crepúsculos engravidados
Da manhã que nunca cumpre o mistério
Deixando sempre o gosto do inesperado.

Carvalhos que evocam a noite escura
Cavalos que galopam em nossos olhares
Desnorteando o porto que já sabíamos certo.
Céticas duvidas que nós enamoramos...
Vertigem que emanam de nossos seios
Abrindo caminhos que desconhecemos
mas  que adentra  o eco de nosso eu.

Pele esfregada no aço das tardes
Hora que espreita os homens de luto
Poema que espera por ser escrito.
Tudo isto é pouco, não abarca o mistério.
Este é como uma estrela no grande buraco
Lá não se chega com todas as palavras
Mas há um caminho a ser esvaziado.

 Sandrio Cândido 




8 comentários:

Acqua Negrume disse...

Carvalhos que evocam a noite escura
Cavalos que galopam em nossos olhares
Desnorteando o porto que já sabíamos certo.


rasantes versos...

in agradecimento pelo punhal lírico

Celso Mendes disse...

O universo de Mar Becker é tudo isso sintetizado em poucas palavras que equivalem a infinitas sensações. Compartilho de sua admiração (somos fãs, certo?) à Mar.
O poema ficou muito bonito!

abraço.

Sandrio cândido. disse...

Celso, sim sinto isto ao ler mar, desde que a descobrir, visito todos os dias.
bom ter te aqui sempre.
abraços

Raul Macedo disse...

O Celso disse bem. Neste universo da Mar Becker as sensações transbordam das palavras, e "cavalos galopam em nossos olhos"; é um mistério.

Também estou entre os fãs dessa guria. Bonita homenagem.
Abraços!
Raul

Lara Amaral disse...

Muita bonita a forma como descreveu essa infinitude de sensações e mistérios que é a poesia lírica de Mar. Também sou fã!
Linda homenagem, Sandrio, parabéns!

Beijos.

Analuz disse...

Ler Mar é instigante...

agradeço tua sempre presença no Luz!

Beijinho com admiração, Sandrio

Marceli Andresa Becker disse...

Nossa, nunca recebi presente de aniversário tão bonito quanto este :-). O que dizer? Que o teu olhar sobre minha poesia é de uma sensibilidade enorme: "Rostos comprimidos no olhar para trás / Desfeito no puro verso da criança em prece / Onde o sinal da cruz lhe diz o pasmo / De saber apenas habitar um universo".
E foi demais essa imagem dos cavalos, animais que amo melancolica e raivosamente.
Celso, Sandrio, Raul, Lara e Analuz: vocêsnãoprestampormefazerchorar.com.br.
Quando morrer, vou puxar as pernas de todos.

Beijos...

Dois Rios disse...

Não a conhecia. Fui pesquisar e te vi (reconheci) por lá ou será que a vi por aqui? Talvez os dois universos num só. Talvez dois "sóis" girando em torno da poesia.

Beijo,
I.