16 de out de 2011

Consideração sobre a ausência de um piano

Naufragaram no profundo cais  dos rostos comprimidos
as inaudíveis  palavras nunca ditas no absurdo da fala
as mesmas que assumiram o sentir daqueles amantes
beirando os bares
enquanto  a noite esfrega os cabelos negros
nos jardins de uma cidade petrificada.

Esboçaram algumas paisagens feita da distância alheia
a mesma que possui os dois enormes olhos azuis
separados apenas por mirarem o mesmo lugar
grafando-os nas  notas de um piano embalsamado

mas espere um pouco:
_ Nunca houve piano no espaço daqueles amantes.

Mentiram a presença do piano, não fizeram acontecer a
musica. Talvez por medo. Depois por covardia de não
conseguir abandonar os trajetos já demarcados e arriscar...
O amor só lhes pediram que soubessem amanhecer juntos.

Sobreviveram a custa de uma canção nunca acontecida
de um outono sem frutos
no desejo de conceber a palavra certa para dizer
o amor que esvaia... e não souberam
que o desejo é uma forma de calar a ausência

Depois os corpos se entregaram ao desejo da carne
amaram-se desesperadamente para esquecer o outro.
Esqueceram o amanhã
porém o amanhã nunca os esqueceram.

Sandrio Cândido

8 comentários:

Sam disse...

Ah, lembro-me do piano que havia em teu corpo, em teus gestos, em teus olhos... quando me ditavam partituras memoráveis e inesquecíveis neste agora enquanto me sento à cadeira de balanço e escondo, em resquicios desse por de sol (a)guardado por dentro dos olhos, um calejado espelho de refletir saudades.

Estiquei os braços para o alto na busca insana de didilha a chuva daquela forma tão perfeita como você sabia fazer, tal singela e similar à "pianar" minha lágrima descendo minha face alva de dias atrás.

Caminhei minhas digitais naquele vão que ficou, no chão aberto, onde o piso era mais brilhoso e a cor mais viva, era do verniz preservado e que agora restou apenas, a borda de um piano que existiu ali, me cantando os amantes tempos que me fez companhia, por noites e noites, por dias e dias.

Beijo em tua alma, querido meu :)

Janita disse...

Olá meu querido Sandrio!

Consideraste e muito bem, a importância de um piano na vida dos amantes!
Por vezes, falta melodia harmoniosa que dê azo à continuação e encantamento de uma relação. Seja qual for.

Fica bem, meu querido amigo.
Beijinhos

Janita

dade amorim disse...

Sandrio, cada vez melhores seus poemas.

Beijo.

Davi Machado disse...

Bom poema, no começo mais incisivo e forte, no fim mas dolente e franco.

gostei.

Dois Rios disse...

Bela metáfora, Sândrio!

Piano, música, amantes.

O dedilhar no corpo amado de todas as notas musicais, ao com de uma canção que só os amam sabem entoar.

Beijos,
I.

Concha Rousia disse...

Um poema maravilhoso, todos os seus versos profundos, mas e mim me apaixonaram alguns em especial: 'o desejo é uma forma de calar a ausênci' Este aí é sublime, parabéns, Abraços desta poeta da Galiza, Concha

Concha Rousia disse...

Um poema maravilhoso, todos os seus versos profundos, mas e mim me apaixonaram alguns em especial: 'o desejo é uma forma de calar a ausência' Este aí é sublime, parabéns, Abraços desta poeta da Galiza, Concha
(ausentara-se a letra 'a' rs)

Roberta disse...

Sandrio, impossível não pensar no belíssimo filme O Piano. Não sei se já viu. Se não, fica como sugestão.
Tão bonito seu poema. Tem a candura de uma nudez entoada no silêncio de olhar. De um piano-promessa num cômodo vazio, aguardando o desejo das mãos. Símbolos bastante fieis à intenção.
E uma pista que diz aos amantes (reverbero): "O amor só lhes pediram que soubessem amanhecer juntos."
Aqui o enigma e a chave.
Beijo!