24 de out de 2011

do sofá ao sol

Estou chorando. Mas é um choro contido. Nada histérico. Estou na sala de minha casa, o sol da tarde ilumina de amarelo o sofá e o piso está limpo. O mensageiro dos ventos sopra o tempo lá fora e as folhas continuam a cair da árvore que há em meu jardim. Árvore esta cujo nome eu não sei. Mas ela é frondosa e bela. Mas não é a respeito de minhas coisinhas que quero falar. Peço perdão aos literatos por meu tom de autoajuda neste escrito, mas eu preciso dizer que há em mim uma necessidade bruta de querer ajudar alguém. E, como não posso ajudar estendendo minha mão, eu estendo minhas palavras. Não é de hoje que pronuncio silenciosamente a palavra frustração. Verbete complicado de se dizer, não? Imagine então vivenciá-lo. São tantos de nós correndo contra a maré, tentando fazer o melhor, escorregando pelos cantos para vencer nesta vida. São tantos. Perdi as contas de quantos amigos já encontrei na total falta de esperança. Como se a vida não tivesse mais sentido ou a tal luz no fim do túnel tivesse, de repente, se apagado. É assim a tal frustração e o que ela nos causa é um rombo tremendo em nosso lado emocional, psicológico, físico e assim por diante. Mas ainda não é este o meu assunto. É algo mais. Estou tentando ir mais longe para alcançar o mais distante de todos os nossos problemas: a grande expectativa. Dickens escreveu um livro intitulado Grandes Esperanças e, talvez, nada tenha a ver com o assunto que tento alcançar. Há livros e mais livros tentando nos ensinar a lidar com nossas perdas e fracassos. E há também livros que tentam nos ajudar a entender que temos limites. Colocando de forma objetiva, perdoe-me a simplicidade do exemplo, digo: nem todos nasceram para chegar em primeiro lugar. Nem todos nascemos para a fama. Nem todos nós teremos o grande amor de nossas vidas (aquele que é tão mencionado em filmes e livros). Nem todas as meninas exibem a mesma perfeição que exibem as modelos de passarela. Nem todos os homens poderão, de forma natural, engravidar suas mulheres. Nem todas as mulheres descobrirão o ponto g (eu mesma não sei do que se trata) e, nem todas as causas serão entendidas (homossexuais serão, por muito tempo ainda, vistos de forma marginal). Nem todas as crianças se tornarão gênios tal qual Steve Jobs. Nem todo amor irá durar mais que o suficiente para causar danos. Muitas pessoas talentosas continuarão anônimas, enquanto outras, de talento algum, continuarão no topo da mídia. E as grandes expectativas que criamos é o que nos destrói. Penso nisso. Não estou dizendo que nascemos para ficarmos contente com o pouco, o mínimo, o nada. Digo apenas que é melhor construir nosso sonho em base forte (nem que seja começar a sonhar pequeno e depois, talvez, se agigantar ao conquistar coisas). É preciso que se saiba que nossa frustração não está apenas em governos, em guerras, na tevê que nos alimenta de futilidades. Nossa frustração está em querer a lua, sem, ao menos, termos conhecido o chão que nos toca os pés. Talvez tudo que eu deixei escapar aqui não faça sentido algum. Você que me lê pode estar tão feliz que mal se dê conta de que, ao seu lado, há alguém que grita urgentemente por ajuda. Sei que o assunto é repetitivo. E, por ser assim, é preciso que se diga sempre que seremos o que o nosso limite nos permite. Não falo de acomodação, repito. Falo de algo mais humano. Sejamos prudentes em nossos sonhos. Odeio parecer otimista ou simplista ao extremo. Ou burra demais a ponto de não conseguir deixar claro o que digo. Serei clara. Seja você e esqueça a casa vizinha, esqueça o orgasmo que você nunca sentiu, esqueça a sensação de ressaca que a frustração deixou em sua boca. Esqueça o topo da montanha. Olhe mais para o chão e, talvez, o céu lhe convide a viver mais pleno e satisfeito por suas vitórias. Precisamos viver o que somos. Apenas o que somos. Assim como o sol que, momentos atrás iluminava a sala, e agora se foi para dar lugar à noite. Apenas como o sol. 

Leticia Palmeira,professora de língua inglesa. Graduada em letras pela universidade federal da Paraiba, autora dos livros Artesã dos ilusorios ( EDUFPB-2009) e Sinfonia adulterada (Multifoco- 2011). Sua pagina virtual é o Afeto literario.

4 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

Perfeito, um vencedor é aquele ( e aquela) que consegue ser quem é. Isso é um desafio, muitos poucos conseguem.

Beijos,

dade amorim disse...

A professora tem toda razão, Sandrio. É preciso ser quem se é, não uma imitação ou uma frustração ambulante. Muito mais difícil do que parece à primeira vista.

Abraço amigo.

Marceli Andresa Becker disse...

Este texto é de uma lucidez arrebatadora.
Quebrar as expectativas, as que depositamos nos outros e em nós mesmos...

Beijo,
Mar

Juliana Lira disse...

Acho que ela está certa. Ainda que eu discorde. E nao porque ache que ela está errada nem sequer em um ponto.
Nao!
Eu discordo porque nao sou feita de chao, nem de coerencia, ou de realidade. E é disso que ela fala, de realidade...
E eu sou mesma alucinada, sou mesmo feita de Lua.
Mas achei o texto lindo e incrível e graças a Deus nao existem muitas pessoas como eu por aí!

milhoes de beijos