30 de out de 2011

Meditação no abismo


O tempo rompeu a armadura de cipó que rodeava o caule.
Penetrou-lhe até sugar toda a seiva. Depois uma estrela
apagou-se no instante, só os rastros ficaram detidos
na poeira cósmica. Abriu-se rente ao chão um abismo.

Imergindo a mulher em prece, seus joelhos esfolados 
recolheram-se em um pântano escorregadio onde 
ecoa o grito desesperado do homens que carregam
a pesada nuvem em sua cabeça pairada na época.

O tempo comeu o berço onde repousara à utopia
hoje desgastada em inúmeros papéis que lhe roubara 
a possibilidade do acaso, matando-a. 

O mar está no poema que sangra ( morada dos homens.
Do enorme desejo de conceber-se. Carne esfumaçada 
na sublime dança das labaredas tortas). 

Tudo é mentira( este
poema também é uma mentira). Tudo assemelha-se a um 
tecido que precisa ser desfeito ( mesmo o fato de saber ser 
tudo uma mentira também é uma manifestação da mentira).

Talvez por isto tenhamos desistido de buscar algo 
além de nossas raízes enjauladas na terra alagada.
sem entendermos porque a mulher ainda assim 
eleva as mãos.
na tentativa de alcançar a estrela apagada...

Sandrio Cândido

6 comentários:

Leonardo B. disse...

[Não há mentira na poesia poema, nenhum nenhuma palavra ou poema em vão, nesse universo que nos acolhe; a palavra reacenderá a estrela!]


Um imenso abraço, Sandrio

Leonardo B.

Celso Mendes disse...

"O mar está no poema que sangra".

Citei esta, entre as muitas figuras muito boas deste poema porque é uma imagem muito impactante. E das mentiras que emergem deste mar, cabe ao poeta revelar o que sente realmente e tocar as falsas verdades de quem tem convicção de alguma coisa.

Abraço, Sandrio.

Sandrio cândido. disse...

Celso e Leonardo meus caros amigos. Obrigado pelo comentário. Quanto a estrofe da mentira eu bisquei ser ironico com as pessoas que dizem que não há verdade. Eu acredito que existe verdade mas nós conseguimos chegar somente as aparências. Eles dizem que tudo é mentira então eu concordei e fui até o fim quando eu digo: "( mesmo o fato de saber ser tudo uma mentira também é uma manifestação da mentira)." ou seja...

Abraços

Analuz disse...

é preciso buscar os jardins suspensos nas mentiras...

Beijinho carinhoso, Sandrio!

Tania regina Contreiras disse...

Sândrio, imagens ricas, um poema forte, bonito...mais uma revelação de seu talento. E deixa nas entrelinhas qualquer possível explicação, que não cabe ao poeta explicar-se, não é mesmo? Grande abraço, poeta!

dade amorim disse...

"Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena", já dizia Pessoa. E concordo com o Leonardo: a palavra reacenderá a estrela.

Um biejo, Sandrio.