4 de out de 2011

O exercício do abandono

Repousa um punhal em meus olhos negros.Insisto
na estranha forma solidificada que aprisiona cascatas
e nas saudades que são tardes mortas no horizonte

e nas portas fechadas com chaves que se perderam
nas muitas algibeiras relegadas as estações
de um metrô que sempre se atrasa

e nos campanários onde demoro os meus ouvidos
sob os anjos metalizados
ventres engravidados do puro devaneio.

De repente surge o verso...transmuda-se o mundo...

Certas horas sombras visitam o meu quarto
crepitando em uma dor que amarga e orvalha
fazendo do chão um rio de instantes derramados.

Tenho a necessidade do desejo que absorva o mundo
envolto em névoas dispersas nos grandes edifícios
que rouba da vista a necessidade do céu estrelado

mas não consegue encerrá-la já que o horizonte
é uma porta que nunca fecha, mas sempre
encontra-se um passo a frente do corpo que cai.

Certas noites pratico o exercício do abandono
em alvos papeis que mancho com o sangue vertido
na tinta que se  expele da caneta esferográfica.

Talvez seja o punhal a rasgar as vísceras...

Sandrio Cândido

11 comentários:

Celso Mendes disse...

O exercício do abandono é o silêncio esvaziado que move o poeta a escrever.

Belo poema, Sandrio.

abraço.

Analuz disse...

o silêncio: punhal da alma a rasgar a carne ensurdecida...

beijinho, sandrio!

Tania regina Contreiras disse...

Belíssimo, Sândrio...E eu quis atravessar essa porta que nunca fecha, o horizonte!
Beijos,

Janita disse...

Querido Sandrio.
O exercício do abandono é o despojar das misérias terrenas e o elevar da alma do poeta.
Lindo poema, meu querido.

Está tudo bem contigo?
Abraços com carinho a atravessar o mar que nos separa.

Beijos

Janita

Acqua Negrume disse...

Penso que o horizonte está sempre um passo a nossa frente para nos lembrar de nossos limites

é como o arco-íris no céu a nos lembrar do pacto divino

quis morar em teu texto
tão de braços abertos eu o senti

in agradecimento

dade amorim disse...

Instantes derramados não voltam, Sandrio.

Abraço grande.

Carla Diacov disse...

só com o título já me como toda pelas unhas...de inteiro...lindo, Sandrio!

beijão.

Patricia Thomaz disse...

tenho tentado praticar esse abandono, mas as vezes é impossível. E realmente sangro e sandro. como isso dói.
beijinhos.

Lívia Azzi disse...

Escrever, entre outras coisas, é levar um bocado de sangue para o papel. Feito "o punhal a rasgar as vísceras".

Beijo

A Escafandrista disse...

sempre tão triste, romântico e belo..

Fátima Oliveira disse...

ainda que eu tentasse descrever sobre uma verdade experimentada... mesmo eu tendo vido-a aos ei se conseguirira ser tão verdadeira e discreta. obrigada esse me emocionou por demais. paraéns bjoss.