25 de nov de 2011

Ensaio para uma possibilidade subjetiva

Ando além dos rastros esquecidos na areia.
Danço em combustão sobre os campos onde
as mãos crescem na possibilidade da ceifa.

Trago na boca um poema.  Sob a forma muda.
Adiando o  uso da veste  linguagem. Assemelha-se
aos jardins possuídos pela ordem do silencio, onde
os lábios molham-se com amargos vocábulos.

Meu corpo queda rente ao chão, em prece espera.
Concebo fazer do instante o grande epitáfio
sacralizo uma borboleta pousada nos ombros
de repente meu  barco está naufragando.

Os braços cansados lançam-se contra as ondas
desfalece  junto aos cardumes de segundos
o farol ausenta-se, não o vejo, mas deve haver farol
aconteço enquanto nado contra as ondas.

Desfaço-me sobre as pedras que em meu ser resvala
sou pedra, primitiva forma de ser do mundo. Sou
a aurora aprisionada na hora escura da noite
devo ser o devir. Possibilidade adiada para um poema.

Devo ser também, sob o manto da inutilidade, um olho
mecanizado, mas ainda um olho... Em mim sobrevive
ainda que de maneira velada pelo medo
o desejo do humano, a face negra de pó e esperança.

Os homens(todos desceram a praia, ao supermercado
encheram seus carros, suas bolsas, novos dentes,
um celular para conectar-se com Marte) me fizeram
querer um mundo que ainda não é nosso mundo.

O futuro ( previsões de encontros adiados no semáforo,
crianças riem sem saber da vida, jovens se beijam
as noites não tem estrelas mas eles se beijam
e se amam sob a calçada fria) é uma rua não sinalizada.

A angustia me devolve o tempo, o sonho, a criança
que em meu ser mora. Eu sinto escorrer em meus lábios
o sangue de um corpo atracado a margem do Tejo.

Confundo-me com a paisagem urbana
devo ser também o concreto erguido entre árvores
que luta para se desprender do destino de ser nada.

Sandrio cândido

11 comentários:

Lara Amaral disse...

Nossa, Sandrio, comovente. Coisa linda essa poema, parabéns!

Beijo, querido.

Analuz disse...

Sandrio, até que ponto esse momento de perceber-se e querer entender-se dentro dessa rotina chamada vida é perda de tempo? rs... estu apelando aos amigos de escrita por uma resposta.

Hoje, os textos que li me fizeram pensar nisso.

Beijinho, moço atencioso!

Celso Mendes disse...

Um poema subjetivo sim, mas que reflete anseios e ansiedades de tantos seres humanos. Sinto forte a urbanidade de sua poesia contemporânea. Gosto de como explora isso, sempre filosoficamente.

Belo poema, meu caro.

abraço.

Sam disse...

Trouxe um poema miúdo
nas mãos.
Uma muda de tempo sobrando nos dedos,
um encontro guardado, marcado nas horas
desse enlouquecer calado
e sagrado viver.

Meu carinho, querido meu :)

Jorge Pimenta disse...

as mãos a erguer-se sobre a ceifa de um poema, pela boca... na boca. simplesmente boca. e toda a linguagem se torna desnecessária.
admirável, sândrio!
um abraço!

dade amorim disse...

Poeta e filósofo, você escreve coisas que sempre vale a pena ler. As possibilidades subjetivas são sempre o campo de preferência da poesia, e o modo como você trata do assunto é enriquecedor.

Abraço grande.

Concha Rousia disse...

Meu querido poeta, tu és a consciencia do teu próprio poema, por isso pode ser silêncio e à vez palavra, belíssimo texto, de longo percorrido e paisagens variadas, como sempre um prazer te ler, beijos, Concha

Roberta disse...

Sandrio, que poema imenso! Ainda bem que não tardei a vir. Perdi até a fala; se conseguir, ainda volto pra comentar. Beijo!!

Beta disse...

Tanto o poema me impressionou, cortando a fala, exige-me fragmentos. Agora volto, pra ver se ordeno algumas palavras desordenadas pelos sentidos. Tem uma voz muito dona de si, e contrasta com a percepção do nada, à medida que vai desfalecendo em angústia e ternura. Mesmo que as ruas não sinalizadas do futuro concebam noites sem estrelas, beijos sob a calçada fria, mesmo com a desova de produtos nos carros, nas bolsas, em celulares que conectam com Marte, falas das paisagens, do mundo que ainda não é nosso. Mesmo nos encontros adiados, é todo um futuro que talvez nem venha, mas ergues o desejo do humano, a face de pó e esperança. Teu poema é uma prece da espera, um corpo náufrago, mas que se debate: deve haver farol. Ilumina.

Marceli Andresa Becker disse...

O ritmo me parece lento, como me parece característico em tua poesia. É um poema para se ler ao compasso de uma respiração reflexiva, de espera mesmo. Há uma praia de fundo, que é a imagem-chave...

Gosto demais disto tbm: "De repente me barco está naufragando".


Mas concordo com a Beta: náufrago, sim, contudo "deve haver um farol".


O 'eu' aqui busca uma autenticidade, sei lá... Parece procurar entender o mundo, a natureza, as escuridões da vida e da morte, deixando-se levar; a propósito, a imagem da "aurora" tbm... Muito bela.

Acho que cada um de nós busca e tem uma voz própria. Na tua percebo forte a presença de temas altamente filosóficos, sobretudo o do tempo; há tbm um diagnóstico de fundo quanto ao que tem se tornado a humanidade (o supermercado, os beijos em noites sem estrela, o celular para se conectar com marte)...


:)

Beijo!

Mar

Dois Rios disse...

Sandrio,

As possibilidades subjetivas alimentam o poeta e o filósofo que habitam em você.

Beijo,
I.