7 de dez de 2011

Não posso escrever sonetos de amor

Sinto que você ficou. Bruscamente ficou. Vejo-te sobre
a cômoda, teus quadris sobre a cadeira. Sobre a estante
teu corpo,já sem a forma do primeiro olhar, vejo-te na
memória de um filme fotográfico.

 De ti nasceram todos  os álbuns, todos os objetos
 guardados  em uma gaveta trancada.

Uma mão acena adeus, outra espera pelos teus ombros.
Vestido escarlate. Cigarro apagando. Perfume no ar.
Sinto-te em meu quarto. Vejo-te sobre o piano
Já sem musica. Tua sombra repousa em uma canção.

Já não nos amamos porque não estás aqui. Sinto-te
tão mecanizada. Vejo todos os dias o teu perfil.Tuas fotos
me fazem sonhar. Mas  não posso te abraçar
porque não és  a mesma de antes, nem a do perfil.

Instante acumulado entre as pálpebras, tu não morrerás.
Empobrecido permanece, tua estranha fala, de silêncios
arrastados.  Das folhagens mortas no chão. Do calor que
passeia sobre o teu corpo febril...

Tua estranha fala perdida
em uma época onde não alcança os meus ouvidos
é a única que posso usar em um soneto de amor
por isto não posso escrevê-los ...

Sandrio Cândido 

12 comentários:

dade amorim disse...

Bonita a nostalgia desse poema, Sandrio. Gosto muito dele, sensível e verdadeiro.

Abraço grande.

Celso Mendes disse...

Nostálgico e belo. Gostei muito do poema. Lembrei de algo que escrevi:
...

no que a carne sente
destes alardes de tinta e pó
um tanto de espanto
um tanto só
[momento e nó]
que arranha o contorno da íris
e se esparrama na pele que enrubesce
tão breves segundos
breves tantos quanto vida
que brevemente os guarda
em cofres-memória
fadados a se esvaírem
na infinita
brevidade
de ser

(Celso Mendes)

abraço!

Joelma Bittencourt disse...

Emoção à flor das letras!

Beijinho carinhoso, moço poeta!

Janita disse...

Querido Sandrio.
Nem as falas perdidas da tua musa te impedem de escrever belos sonetos de amor.
Essa Divina inspiração nasceu contigo e sejam quais forem os momentos em que te encontres é na poesia que te reencontrarás.

Parabéns, meu querido poeta.
Beijos com o meu carinho de sempre.

Janita

Sandrio cândido. disse...

A impossibilidade de escrever sonetos ( além de ser porque eu não sei fazer sonetos) é porque o amor acabou se transformando apenas em objetos, o amor não existe, o amor neste poema é na verdade uma coisa.

Abraços a todos

Rosa Mattos disse...

É...não se pode escrever sobre o que não existe mais.

Bem,...até se pode, mas será um soneto vazio, metálico, frio, sobre algo hipotético, que talvez um outro coração tenha sentido.

Mas daí,...não será um soneto de amor por mim sentido. Será um soneto de amor que alguém sentiu.

Sam disse...

Destilei os ontens e os engoli todos com meio copo de vodka embebecida em gelo, na esperançca de refrescar a brasa que tua pele me deixou, marcando rastros por entre os vãos, além dos dedos. E não sei quem foi que me perguntou das suas partidas, misturas às suas quase ídas que em momento algum se quer me disseram do porquer partir.
Debrucei então essa coisa de amor moldado, de faixada por cima do capô do carro e sorri singela pra quem passasse como quem verte lágrimas sem molhar a face.
Lembrei sim dos espaços e dos laços gerados dia a dia, onde havia ainda resquícios de sol e um arrebol, mesmo mínimo que me trouxesse sua volta sem partida, seus caminhos nos meus pés.
O meu cigarro agora, é a companhia que beija minha boca e a fogueira é a cinza do desejo sem mais razão de existir.

Você me inspira cada vez mais, amigo.

Beijo na alma :)

Sam disse...

Destilei os ontens e os engoli todos com meio copo de vodka embebecida em gelo, na esperançca de refrescar a brasa que tua pele me deixou, marcando rastros por entre os vãos, além dos dedos. E não sei quem foi que me perguntou das suas partidas, misturas às suas quase ídas que em momento algum se quer me disseram do porquer partir.
Debrucei então essa coisa de amor moldado, de faixada por cima do capô do carro e sorri singela pra quem passasse como quem verte lágrimas sem molhar a face.
Lembrei sim dos espaços e dos laços gerados dia a dia, onde havia ainda resquícios de sol e um arrebol, mesmo mínimo que me trouxesse sua volta sem partida, seus caminhos nos meus pés.
O meu cigarro agora, é a companhia que beija minha boca e a fogueira é a cinza do desejo sem mais razão de existir.

Você me inspira cada vez mais, amigo.

Beijo na alma :)

Concha Rousia disse...

Pois para não escreveres poemas de amor, eles sim que aparecem aqui... o amor, feito lirismo se mete entre as tuas palavras, sempre bom te ler, poeta!

Juliana Lira disse...

Há outras formas de poetizar. Gosto mesmo é como andas: Sempre pra frente, sempre atento a cada rosa do caminho.

Milhoes de beijos

Hermética Pungência disse...

Encantado fico ao sua forma de olhar o mundo. Um modo quase lúdico, inocente como apenas os artistas são de nos chamar a atenção pra uma realidade que constantemente vemos, mas não enxergamos. Parabéns.

Lobodomar disse...

Bom dia.

Muito bons: o seu texto e o seu blog. Seu poema, bonito e suave, nos leva à profunda reflexão: nunca é fácil escrever poema de amor. Parabéns. Virei aqui mais vezes para apreciar seu belo espaço.


Feliz ano novo!
Grande abraço.