13 de dez de 2011

O homem dividido

Metade de um coração bate em meu peito,boca seca
devora os quilômetros. Trago na garganta uma noite
e nos olhos vagalumes apagados.Nas mãos estrelas
dependuradas, postes que iluminam alguma estrada

meu piano está abandonado no canto escuro da sala
a musica não é tocada, mas eu a ouço todas as tardes
quando o silêncio me traz as notas despedaçadas
ao espaço claro do meu quarto chamado memória

todos os dias o tempo abre na história uma ferida:
Eu vejo dois homens disputarem a ultima vaga
localizada em um estacionamento vazio
na mesma esquina onde um corpo se perdeu de mim.

Um corpo desprendeu-se da criança que eu era
andou sozinho até chegar a um semáforo fechado
porém a criança estava distante, em outra curva
adiamos a possibilidade do encontro.

dizem que viver é adiar encontros. Da criança feita
fotografia ao adulto feito pedra com o idoso feito
rio. Todos foram apenas um e nunca se amaram
nem conseguiram enlaçar as mãos. O tempo os partiu.

O tempo também partiu meu coração. Metade dele
pertence ao poema, outra metade pertence ao mundo.
metade é cal, metade é pedra. metade é rio, metade
é mar. Metade é inverno e a outra primavera...

metade retém a palavra. disseca. moe. faz cair no papel
o estranho pó transmudado em imagem. A outra metade
deixa escoar a palavra. Água a bater na pedra do mistério.

Sandrio Cândido

9 comentários:

Mirtes Rodrigues disse...

"Trago na garganta uma noite

e nos olhos vagalumes apagados"

O poema inteiro é lindo, mas essa frase em especial me chamou muito a atenção.

Celso Mendes disse...

"Um corpo desprendeu-se da criança que eu era
andou sozinho até chegar a um semáforo fechado
porém a criança estava distante, em outra curva
adiamos a possibilidade do encontro.

dizem que viver é adiar encontros."

A vida é uma eterna espera de encontros e nos dividimos continuamente, nos dividimos e nos multiplicamos, multifaces de um uno, multipartes de um todo. O melhor mesmo é deixar escoar a palavra. "Água de bater na pedra do mistério" (adorei isso).

Grande poema, meu caro. Gostei muito.

abraço.

Concha Rousia disse...

Meu querido poeta, escreves com imagens tão vivas que capturam, mas só para libertar num campo de lirismo magistral, adoro o teu poetar, parabéns Snadrio, abraços e poesia sempre!

Patricia Thomaz disse...

São lindas suas palavras. O que dizer quando algo esta realmente perfeito. Não encontro apalavra certa. Então, contento - me com: perfeito. Sim. Tudo me tocou profundamente, mas me encontrei nesta frase :

" O tempo também partiu meu coração. Metade dele
pertence ao poema, outra metade pertence ao mundo. "

dade amorim disse...

Suas imagens são de prender a gente, Sandrio, são reais, vivas e muito muito bonitas. E viver é mesmo adiar encontros...

Abraço grande.

nydia bonetti disse...

Repetindo Celso: Grande poema, Sandrio! E esse final inunda nossos olhos da mais pura poesia... abraço!

Juliana Lira disse...

Engraçado, eu os vejo todos juntos:criança, adulto, idoso.
Um poetizar tao lindo nasce inteiro.


milhoes de beijos

Andrea de Godoy Neto disse...

Sandrio, este poema é maravilhoso!

as tantas partes que nos compõem, que se misturam em nós

beijos pra ti!

Andrea de Godoy Neto disse...

Sandrio, este poema é maravilhoso!

as tantas partes que nos compõem, que se misturam em nós

beijos pra ti!