13 de jan de 2012

Dá-me tuas mãos onde pétalas de plásticos se dobram

Dá-me tuas mãos onde pétalas de plásticos se dobram.Desçamos a rua.
É noite e todos os homens se reconciliam com a morte.

Absorvamos o calor evadido das pedras. Há um coração nelas, um poema
que surge quando a chuva toca a pele rústica,
uma rosa que abre fendas nas folhas catálogos ( séculos  embalsamados).

Não posso adormecer, pois teu som vem de dentro da cômoda
onde guardo uma corda amarrada em nó e uma caneta sem tinta
junto a uma folha onde todas as palavras se grafam em exaustão

como uma formiga circundando o corpo do animal ainda quente
assim surge os poemas que nunca tomarão a minha voz
existem por si mesmos, no ventre da solidão.

( todo poema é uma forma de reconciliar-se com a morte)

poucos metros nos separam dos homens, poucos homens nos separam
dos homens, poucos homens abraçam os homens, poucos homens
são homens.

A cidade ergue-se como um céu rasgado, há casas que são estrelas
perdidas em constelações estranhas, por isto tornam-se museus
lá adormecem fantasmas, sonhos não feitos, poemas não escritos
e sombras de corpos que  não existem. dois amantes separados se encontram,
no desenho pinchado, dois amantes se beijam na lagrima, saudade liquida.

Há condomínios que são anos luz do tempo em que habito, por isto as grades,
são os calendários que separam os homens ,as facas que rasgam o tempo,
por isto as grades, para dizer aos visitantes que nunca estamos,  e quando
estamos, é engano, apenas aparentamos estar.

Desçamos. A cidade é um manicômio sem loucos, uma farmácia
com receitas que nunca saem do papel. A lucidez também virou receita
e vem com cardápios, há lucidez ao molho de Diazepam, há lucidez
com pipoca, há lucidez vendida em telas.

Há lucidez na estante de uma livraria, onde disputa uma queda de braço
dois gêneros.

Há loucura em um poema que a musa deixou para amanhã, nele reside todo
o peso de ser homem. Lá há um estanque que guarda os silêncios
e um mar que atravessa a garganta dos sinos... Lá a cidade é um
poema envolto em nevoa, a espera das mãos que a limpem.

Mas onde encontrá-las?

Sandrio Cândido.

6 comentários:

dade amorim disse...

Tantas são as possibilidades dos homens, tantas são as surpresas que podem nos abordar.

Abraço grande, Sandrio.

beta disse...

em tua poesia cada vez mais as paisagens renovadas pela ancestralidade do poético. a profusão de imagens que captam um mundo em que o tempo foge ao tempo. ainda assim, como se narrasse a grande surpresa. que são os encontros na linguagem. :) bjo.

Luciana Marinho disse...

a beleza do primeiro verso não se perde nos versos seguintes. poema de grande fôlego. muito belo, sândrio.

carmen silvia presotto disse...

Sandrio querido, é um prazer estar aqui te lendo.."( todo poema é uma forma de reconciliar-se com a morte)"grita o poeta, porque a Poesia se quer viva.

Um beijo amigo e desejo de boa semana.

Carmen.

Concha Rousia disse...

Sandrio, o teu texto é uma selva riquíssima, e a cidade fica longe com sua ausência de loucos... parabéns por teu lirismo, tua criação em imagens, tao vivas, tao vivas, que mesmo parece que escrevesses com desenhos :) adorei, abraços, Concha

maria azenha disse...

Abraço,Sandrio.

Gosto muito...