19 de jan de 2012

Poema em estado de febre


Como tudo o que acontece este é um fato não real.

no coração da terra há luas despedaçadas em distantes primaveras, calendários
de areia guardam no bojo outonos, poemas maduros  vertem na letra
o nome de uma cidade desconhecida,
é uma ilha imersa no canto escuro do mar, onde um pássaro se move- em círculos
traz em suas asas as chaves que tanto procuro
há muito tempo esqueci o mapa e já nem sei navegar.

Os campos de trigos estão imersos em água, é uma rua deserta onde uma casa
guarda crianças raptadas lentamente
fogem pelas janelas do fundo e poucas são encontradas...
há galhos secos que rasgam os corações já quietos no silêncio
insistem em falar
mas quem ouvirá na noite a palavra dizer sua trajetória.

Eu ouço:

(nasci virgem, 
oferecia-me a lua negra, todos os homens desejavam-me
em uma tarde veio as mãos brutas sobre minha pele de palha
romperam-me,rasgaram minha roupa, deram-me um traje de sangue
e fizeram me adormecer dentro de um telegrama econômico
viajei por lugares desconhecidos, dicionários e livros, cadernos
pastas e arquivos, até ver desgastada toda a veste que eu usava.
Outros homens me possuíram, na volúpia da fala me disseram
sem mesmo ouvir o que eu desejara dizer, poucos ouviram-me.
Então galguei os degraus até os telhados do mundo
mas minha voz era já a nota baixa de uma canção vagabunda)

tentei agarrar a palavra que me suplicava:

( não me impeça de derramar em teu colo o sangue dos séculos
em que me fizeram prisioneira de um dicionário)

então a palavra abriu suas mãos para o vento. Nos seus lábios germinou
um beijo em reverencia ao canto da morte
os sinos tocaram como nunca antes.
A palavra atirou-se no rio que havia a beira da casa,
onde crianças eram ressuscitadas.
vi nascer flores no asfalto, macieiras amarrarem as grades
não sei bem o que aconteceu depois
mas se não morreu, a palavra navega distante, em outros lares. 

por curiosidade perguntei a palavra:

( qual o seu nome)

Ela disse me:

( enamorei tantos homens e poucos souberam dizer-me
poucos sabem o meu significado )

Chegou aos meus ouvidos e disse cantando :

(levitava as folhas que o tempo jogou
no chão dos pomares
beija-me esta noite, eu me chamo liberdade)

liberdade
Liberdade
é um eco que bate toda a noite em minha janela

Liberdade

Infinito poema a dançar nas cinzas, sucumbindo nos ares.

Sandrio Cândido


13 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

Ei, menino, esse estado febril é a hora exata em que o poema quase arranca sua veste preciosa e se põe nu, vertiginoso, contorcendo-se...e isso o torna um poema que quase jorra diretamente da alma aos olhos de quem o lê! Maravilha, Sândrio...

Beijos,

Celso Mendes disse...

Em estado de febre e torpor lírico. Delírio de palavras como gosto.

Belíssimo, Sandrio.

Grande abraço!

Janita disse...

Querido Sandrio.
Isto é uma explosão vulcânica em forma de poema!
A liberdade de soltar os teus sentimentos em perfeito estado de exaltação.
Adorei, meu querido.

Muitos beijinhos com carinho.

Janita

ju rigoni disse...

Sandrio, um poema de imagens belíssimas. Quanta força e delicadeza há nas penas com as quais construiu essas asas em que voa o seu poema...

Bjs, poeta. Um bom fim de semana. Inté!

ju rigoni disse...

Sandrio, um poema de imagens belíssimas. Quanta força e delicadeza há nas penas com as quais construiu essas asas em que voa o seu poema...

Bjs, poeta. Um bom fim de semana. Inté!

Carla Diacov disse...

e o eco na vidraça nem pode ser passarinho inho inho!!!

beijo eijo!

Maria Oliveira disse...

Oi,vim conhecer seu Blog,amei e já estou super seguindo,parabêns por seu cantinho e muito sucesso aqui!

Te convido para conhecer meu Blog e se gostar e puder seguir também,será muito bem vinda,sinta-se em casa!

Ah,tem 2 sorteios rolando por lá,participa! :)

http://umamulherbemvestida.blogspot.com

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Samara Bassi disse...

Ahhh, sinto-me num daqueles lutos por dentro, febris como tardes ensolaradamente gélidas de outono por entre tantos meios de inverno, onde as folhas desbotadas, ectéricas e tediosas se desprendem e partem por toda a parte.
E esse seu sangrar confessado são taças embebecidas em vinho que emudecem e enlouquecem o mais são dos homens, desprendendo um suspiro em bancos de areia, entre marés (entre)cortadas pela maresia dos olhos... em demasia.
Quando em lua cheia, verto em rios, as cachoeiras que os dias me trazem, entrelaçados em resquícios de um outono torto, morto nos segundos e voltas que os relógios dão, nesse chão de sangue pisado em meu confessinário onde o ócio e o trabalho de se buscar em vão... é mero vão preenchido de espaço.

Sam.

Lisa Alves disse...

Maravilhoso teu poema. Magicamente narrara a trajetória de uma palavra que muitos anda não pescaram.

Juliana Lira disse...

Fico me repetindo todas as vezesque venho aqui e digo que vc rouba minhas palavras.
Perco a fala ante tanta beleza.

Liberdade, ecoa teu som na minha vidraça também, pra serenar meu coraçao e me inspirar tao lindamente.


Millhoes de beijos

dade amorim disse...

Belo esse poema, delirante, imaginação em febre.
Abraço grande.

Marceli Andresa Becker disse...

Belo poema mesmo, em estrutura (inusitada, muito interessante) e em imagens.

Beijo,
Mar