16 de fev de 2012

Ao homem por dentro do espelho


O espelho defronte aos meus olhos está gravido, no ventre 
estão todos os corpos paralisados pela  maquina de fechar 
instantes. Vejo o  meu corpo esquecido sobre a cadeira,sinto
me confuso com tudo isto. Com o movimento das maquinas, 

com o espelho debruçado nos ombros do mundo e com esta 
chuva a cair no jardim, fazendo crescer searas de rosas 
por cima dos telhados...Escorre pelo céu da boca um córrego.
Junto as águas viajam versos de cecília Meireles,se espreitando 

por entre as pedras .Também sou como as  pedras.Apesar da 
possibilidade do amor as vezes me possuir, apesar da liberdade 
infinita  roubar o meu grito e deste silêncio que se alastra dentro
da  boca como uma chão escavado para o interior do mundo.  

Lá onde surge o fogo para consumir os olhos feitos de névoa
e não há escadas para descer... Busco uma praia não habitada
Atlântida miragem nascendo no seio do nada,crescendo por 
entre as mãos que apalpam as folhas de um livro empoeirado. 

Estou cansado.Tenho sede e a fonte está distante da boca. Devo 
saltar no abismo, apesar da incerteza de haver água do outro 
lado.Talvez não haja e minha sede seja esquecida no caminho,
mas não posso ficar aqui  esperando,corro o risco de me perder. 

Escravo do banal , essa corda do cotiano amarrando o meu pulso. 
Preciso saltar no poço vazio, é fundo, sou feito de funduras 
estou gestando algo que não é apenas a imagem no espelho
mas por enquanto a lagrima ou este sangue escorrendo da pedra

ou este pássaro chamado melancolia, esta solidão me possuindo
na madrugada ou 
este espelho cicatrizando o passado em um rosto noviço 
e tudo isto se passa enquanto rezo na gruta frente ao mar:

_Vem esta noite, estou a sombra do teu abraço e sou como 
um mendigo.A noite é fria e estou  sem cobertor.Apenas
possuo o espelho e dentro dele o rosto que me deste.

Desejo aconchegar a minha noite sobre os teus olhos de luz
depois 
ir para a rua, vestindo o silêncio com a terra seca
semear pelas calçadas do mundo essa paisagem inaudita.

Sandrio Cândido 

4 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

apesar da liberdade
infinita roubar o meu grito e deste silêncio que alastra se dentro
da boca como uma chão escavado para o interior do mundo.

Sândrio, tua poesia está cada vez mais forte, mais profunda, mais bonita. Encanta-me...
Parabéns, e beijos, querido...

Lara Amaral disse...

Sandrio, meu caro, que belo poema!

Beijo grande.

Samara Bassi disse...

Foi assim que espelhei meus ontens e fiz a travessia de mim, através de mim.Que encurtei as distâncias apaziguadas nas mãos calejadas de reter estilhços e cravar nos dias, essas escuridão, tão farta de sins e nãos.
Também me vi por entre as pedras onde o amor, apesar de leve, se agarrou às minhas canelas e tantas vezes me impediu de seguir, de matar a minha sede, minha tecedura de manter no caos, qualquer alinhavo de ternura e esperei, esperei então o dia amanhecer e debruçar seus raios através da minha cortina, refletindo no meu retrovisor, meus atos passados e um tanto quanto até repudiados de me tornar um prisma. E essa tal banalidade, tão confusa que me latejava as têmporas, nostágica e também melancólica, desabotoou meus olhos pros sentires noturnos que não soube, nem pude evitar.
perambulando nas esquinas, como sorte à deriva de me encontrar no abismo, atravessei esquinas e de joelhos me curvei à ti, espaço tão oco desse meu peito inerte e quase morto, encontrei o aconchego e o abraço nos teus abrigos tão desmedidos, desmentidos de luz, que me doparam de mim, pela madrugada inteira, sendo um espelho, através de mim. Sim.

Tua escrita é de uma força que me consome, é um alimento que me mata a fome.
É indispensável.

Meu carinho sempre
Abraços, flores e estrelas...
Sam.

carmen silvia presotto disse...

Hey, não é fácil vestir os passos do silêncio, há momentos que eles gritam, noutros somente a poesia para nos seguir caminhantes...

Beijos, Sandrio e sempre carinho, bom retorno de Carnaval.

Carmen