4 de fev de 2012

Descemos pela casa do antes


Descemos pela casa do antes.
Levando na boca  a vela acesa nos olhos de uma criança...
Lá não havia ninguém
todos haviam fugido pela porta do futuro
e nunca os encontramos.
Voltamos com os braços cansados de escavar nuvens
sentido a solidão de um corpo sem pele
e o vento assoprar ao norte pontes de areia.
Lá repousa os passos cansados de subir degraus quebrados
e eu escrevo este poema que é um pássaro desenhando círculos
nos olhos do amanhã.
Devo esquecer a palavra no ventre do caderno
fecundando horizontes.
Meu ultimo trabalho é despir a roupa de sangue
até alcançar nas mãos o lírio branco
por enquanto não posso apontar o dedo para a luz
nem para as sombras
só posso deslizar as mãos sobre a superfície da ponte.

Sandrio Cândido

Imagem: Exploração urbana

4 comentários:

Celso Mendes disse...

as mãos na superfície da ponte, mas a visão a viajar infinitos atemporais. muito bonito, muito sábio e muito lírico, Sandrio.

abraço

Marisa disse...

"eu escrevo este poema que é um pássaro desenhando círculos
nos olhos do amanhã"; que linda imagem, Sandrio.

Gosto demais do que escreves!

Samara Bassi disse...

ouvi murmúrios no vão da escada,
numa estrada que fiz no fundo do quintal, aquela parte escura que me limita à luz, qualquer embrigar de claridade que minha retina anseia.
não entendo dessa solidão por entre folhas secas e rasgadas dos meus cadernos e diários de todos os dias e nem daquela rosa murcha que deixei morrer num copo d'água e inerte.
percebi que fui mesmo aquela que restou, não no passado e nem se projetou num futuro qualquer, mas fez um presente como estrelas cadentes que despencam, sem ainda deixarem de brilhar, naquele vão que há entre a cozinha e o teu quarto, onde me apartei há anos do teu velho abraço, sem saber porque.

Meu carinho sempre,
Sam

Flávia disse...

Penso que a ponte é sempre o amigo mais próximo. Aquele que estende o corpo à carícia da mão, aquele que estende a mão à sevícia do corpo.

Beijo.