11 de fev de 2012

Estamos sós

"Não deixaremos o jardim morrer de sede"
Cecília Meirelles    

Passeava uma musica pelos corredores da casa.Os espelhos  partidos
eram jogados no mar. Trazemos na boca a sede dos jardins imersos
no deserto feito de sal

sem o oásis de uma rosa crescendo. Derramando pétalas sobre o corpo
estendido na cama.
Enquanto isto: A vida escorre pelo leito de pedras
e uma lagrima vem junto as folhas da noite
lapidar os diamantes que nos habitam os olhos

É por isto que um poema sangra na garganta dos violinos
estamos sós
e vamos aspirando para dentro dos pulmões um rua sem retorno
enquanto o sol se esconde no lado esquerdo do espelho
e um coração deixa de tocar a musica da vida.

Talvez, uma cidade seja gestada no ventre das mulheres
e nos  pulmões da juventude se despedaça o nome de utopia.
Lençóis de chamas consomem os olhos da mulher
debruçada nos braços do infinito.

O céu rasgou ao colidir com uma nave de facas
foi na orbita de um planeta distante
transportava jalecos brancos que nos roubaram o horizonte
e havia caixas com bisturis, provetas e relógios de ouro

tudo isto aconchegado junto ao livro das luzes
promessa tardia.Perdida no escuro do século passado.

Estamos sós
acumulando camisas usadas no canto da sala de espera
dentro de uma casa vazia
a pele pouco a pouco deixa de ser a ultima fronteira
e o corpo se estende para a labareda das horas
Dançando no infinito

é isto o que queria nos dizer na primeira pagina do grande livro?





6 comentários:

fabianaturci disse...

sandrio, este texto é assombroso. me causou vertigem extrema: a beira da morte - a beira da vida. como pode, tão bonito, e tão triste? fundantes tuas palavras, porque só se escreve assim. no limite. deixo beijos, de uma admiração profunda

Mirtes Rodrigues disse...

Muito bom.

Beta disse...

li mais cedo, sandrio. seus poemas têm o tom do desvanecido. bonito e triste como a fabiana comentou. há algo do que não se diz, do que não se contém, e se inaugura no vazio. gosto muito, muito mesmo. aproveito para agradecer seus comentários lindos, sempre pertinentes e inspiradores. bjos.

Beta disse...

"Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci."

Álvaro de Campos

Celso Mendes disse...

É por isto que um poema sangra na garganta dos violinos: porque há poetas para rasgar a boca com palavras que cantam. Você é um deles, decerto.

Belo, meu caro!

abraço.

Insana disse...

uma maravilhaaaaa...

bjs
Insana