31 de mar de 2012

Aos Homens de dentro e aos Homens de fora

Penso em escrever um poema aos homens dentro do quarto 
começo examinando as coisas existentes fora do quarto 
as coisas mensuráveis aos microscópios do meu laboratório
as coisas palpáveis, límpidas,as coisas verificáveis 
inicio verificando a textura estática destas coisas exteriores 
sua forma rasa e material, sua forma instrumental 
depois observo as coisas de dentro do quarto 
inverificáveis.
Concluo pela não existência de homens dentro do quarto 
não conheço homens e quarto, não desejo conhecê-los 
ainda assim dedico a eles este poema de ervas e pálpebras
inútil como as portas fechadas dentro do quarto
como os homens dentro e os quarto não existentes  
as chaves amassadas dentro da garganta do tempo.
Elevo um cálice nas mãos e salta vocábulos dormentes

bebo o vinho e entre dentro do cálice esvaziado
surjo para fora, em outro mundo possível, não verificável
os homens neste mundo não adoeceram de lucidez 
esta doença a devorar regiões desérticas do cérebro
não há grades amarrando os corações destes homens 
as gavetas estão abertas e os sapatos ainda falam 
os passos não se amontoam sobre única estrada 
os homens não são conduzidos como bandos de cabras.
Desperto do efeito nocivo provocado pelo vinho, estou no real 
desço da cama e escalo uma agenda esquecida na mesa
ouço o vento gritar nas janelas fechadas e não as abro 
um cemitério de pianos cresceu no meu laboratório
não interessa as musicas caladas em seus vasos  sanguíneas
ouvir é nocivo como escrever bêbado este poema sonâmbulo
algumas flores mortas lambem os raios de sol.
Atravesso a enorme sala, a mobília se confunde comigo 
apago as lâmpadas e saio para a rua defronte a porta 
cresceu um iceberg em meu coração  
os homens correm como animais flechados no corpo 
uivam como lobos diante das vitrines acumuladas 
transformam-se em mostruários ou etiquetas de comercio  
manequins expostos as grandes vitrines 
sou estranho as homens devoradores de maquinas 
devo fechar-me em meu tumulo de sombras, não os conheço. 
Pensei um poema aos homens de dentro do quarto 
um poema suplica aos seus olhos chuvosos 
entendam as vossas mãos aos homens de fora do quarto 
ainda que pregos lhes sejam enfiados na garganta 
posto que corremos o risco de morrer todos a deriva 
aquecidos nesta jaula a fechar-se em nossos corpos 
explodiremos como  fantasmas alagadas de sonhos. 
ainda é tempo 
enlacemos as nossas mãos sobre este rio turvo
os homens de fora com os homens de dentro 
tentaremos pela ultima vez a construção da ponte. 

Sandrio Cândido

4 comentários:

Carla Diacov disse...

Ando lindamente espantadíssima com o tudo aqui...


beijo, espantado.

Tania regina Contreiras disse...

Ainda é tempo: que venha a PONTE!
E o poema - amei!
Beijos,

Andrea de Godoy Neto disse...

Sandrio, nem sei se dá pra comentar... é tudo tão intenso

admiro os homens que constroem pontes, pois eles dão passagem a quem não sabe voar

belo belo o poema!

beijos

dade amorim disse...

Pontes são símbolos, talvez as chaves para tanta aflição. Mas não sei se é isso que o poema deseja.

Beijo.

Seu comentário lá no Inscrições é comovente e muito sensível, Sandrio.