1 de mar de 2012

Chove sobre os nossos olhos de prata

 

Desfaz as nuvens negras. Rasguemos esta roupa usada a séculos.
Estamos blindados para o vento que canta canções marítimas.
É preciso  ter a coragem de pintar lantejoulas sobre a noite
desejar que rompa o cimento deixado sobre a voz das matas.

A cadeira vazia ficou esquecida na chuva. Não iremos busca-la.
Falta-nos o senso do ridículo. Os ouvidos acostumados ao metal
já não sabem descansar ao som das gotas no telhado,os pés
desconhecem a dança sobre as águas  escorrendo pelo corpo.

Precisamos nadar contra os poços que insistem em atracar-nos.
Somos como o piano dedilhado pelas mãos do impossível
Viemos com nuvens de algodão sobre os olhos.Quando falamos
deixamos escapar as gotas de orvalho sobre o lírio branco.

Desde que a lampada apagou sobre as praças das cidades
e a luz se fez poeira nas estantes da biblioteca, ficou imóvel o
o grande sonho camarada, andamos estranhos ao outro
e o povo transformou-se em seção de debate no congresso.

O homem  ainda é uma borboleta dentro do casulo. Somos a
possibilidade não concretizada, o barro ainda virgem nas mãos
do artista. Estamos todos juntos e separados. Chove sobre os
nossos olhos de prata, vamos as ruas, é tempo de despedaçar.

Que o amanhã não seja apenas o século do tédio e do nada.
Sejamos a folha branca e  que em nós se escreva o
grande poema que chamam de amor... Chove sobre os nossos
olhos de prata.É preciso limpar os nossos vidros empoeirados
para que sejamos o útero fecundando a criança liberdade...

Sandrio Cândido

7 comentários:

Leonardo B. disse...

[como caminhadas

nos desertos que se nos fizeram pele,
a palavra cobre o mundo,
faz-se chuva e chão, onde a palavra
se retomarão

palavras caminhadas, chovem.]

um imenso, imenso abraço, Sandrio

Leonardo B.

Concha Rousia disse...

Ler-te é acreditar em que a poesia transforma, porque assim é... que lirismo intenso, Sandrio, desejo que acertes e o homem ainda abra os seus olhos, evolua, voe e se encontre com tua poesia no futuro, quando ele entenda. Abraço poético bem forte!

carmen silvia presotto disse...

"..É preciso ter a coragem de pintar lantejoulas sobre a noite.."
E que sigamos com esta coragem, um beijo, bom final de semana e sempre carinho Sandrio.

Carmen.

Celso Mendes disse...

A partir de um título muito bonito, um poema excelente, com um texto reflexivo e inteligente.

Gostei muito mesmo, Sandrio.

Bem, como você, também ando em falta com minhas leituras, o que é uma pena, mas o tempo, a vida e o trabalho (no seu caso os estudos) às vezes não nos deixam ser donos de nossas vontades.

Grande abraço! Parabéns pelo texto.

Samara Bassi disse...

Sim!

Foi por isso que desfiz minhas nuvens que nublavam meus dias e noites por trás dos olhos, em frente as cortinas da minha antiga sala de jantar.
Minha cadeira de balanço, você bem sabe, era companheira imutável e ouvinte das minhas histórias guardadas e aguadas de tanta chuuva, e de tanta pluma negra que me enfeitava os braços, que desaprendi a me fazer notar.
Acendi então as luzes do meu quarto e nas janelas adormecidas, debrucei meus sonhos nos tantos e iguais bancos de praças em que te vi passar, como se fosse amigo colorindo as ruas e suas vielas, seus bares, destemperando amores e dissabores nesse paladar urbano preenchido de (in)cômodos.
Moldei-me como argila de artesão, como brinquedo nas mãos e diante dos olhos, chuva de prata, me traz a leveza que meus olhos por muito pesaram num despencar diário e nu.
Revi(vi).

Lindo, meu amigo.

Meu carinho e admiração.
Sam

Nelma. disse...

Bom dia!!Entrei para fazer uma visita,e adorei o poema.
Já estou te seguindo beijos.

dade amorim disse...

Gosto do modo como você desenvolve reflexões em seus poemas.

Um grande abraço, Sandrio.