11 de mar de 2012

Contemplação do útero

Caminhamos todos para o abismo
somos a rosa desfolhada nas mãos crepusculares
sabemos que as primaveras são mascaras tapando o rosto do inverno
temos os braços abertos e as mãos em chamas

ainda escrevemos versos
construímos casas, cidades e pontes
dançamos
estancamos instantes no leito seco de uma fotografia
degustamos cecília e Rilke

fazemos cartas de amor
depois as rasgamos
quando se apaga em nós a vela do eterno

Jantamos
talheres dispostos a mesa
estranho rito cotidiano
corda que enforca a garganta dos sinos
sonhamos uma rua estreita em outra galaxia
lapidamos diamantes de sangue

vamos a escola
para aprender um idioma numérico
equacional
idioma das maquinas
depois de gerar um receituário ao corpo doente
e vazio
vamos a igreja
para aprender outro idioma
branco
idioma das praias e dos mares
dos barcos naufragando em olhos de fogo
depois de aprende-lo esquecemos o outro
já não sabemos dialogar com a terra
casulos fechados em alguma aldeia...
Sepultamos as possibilidades no tumulo da certeza.

Algo precisa sangrar em nós
sei que estamos juntos
mas não habitamos o mesmo tempo
quando nos abraçamos e dizemos que nos amamos
ouço tocar o epitáfio na fibra do meu peito
sei que estamos distantes
somos cadáveres expostos ao tempo
nunca somos
bebemos em uma rosa branca as lagrimas de aurora
também nós temos os olhos úmidos
terra que desabrochou-se para a chuva.

Escrevemos para seduzir a morte
flertando com o abismo
desejando acasalar a solidão
ainda sabemos amar
por isto em nossas mãos cresce o universo
quando os lábios se beijam apaixonados
e quando no papel deixamos cair o sangue das letras
fecundamos a vida
por isto escrever é contemplar o útero do mundo

Sandrio Cândido

4 comentários:

Davi Machado disse...

"bebemos em uma rosa branca as lagrimas de aurora
também nós temos os olhos úmidos
terra que desabrochou-se para a chuva."

Grande Sandrio! esse é o canto!
adorei esse poema, uma boa construção!

ainda somos os mesmos e vivemos!

carmen silvia presotto disse...

Que beleza de poema, um abraço e desejo de uma semana Sandrio.

Carmen.

Lara Amaral disse...

Sensacional esse poema-hino!
Lembrou-me de Drummond, mas claro que tem muito de vc, Sandrio, sua sensibilidade, seu traço característico, seu diálogo com o universo.
Adorei!

Beijo.

Tania regina Contreiras disse...

Estou aprendendo a "te ver" pelas tuas palavras. Acho que já conseguiria identificá-lo mesmo sem assinatura, isso é bom, eu ainda não consigo isso. Gostei muito dessa imagem - "vela do eterno" - e vou carregá-la comigo, lembrando sempre do poeta que a criou.
Beijos, querido!