23 de mar de 2012

Deságuo no teu silêncio

preparei uma mesa ao  redor do coração, esperava 
que viesses a mim,
ao meu lado a cadeira de balanço vazia
a tarde desabrochando nos lábios a consumar o beijo
deitados na proa dos saveiros
e as bocas salgadas na maresia.
Velejávamos
em nossas bussolas inscrevemos o desejo do eterno.
dançávamos enlaçados aos braços do vento
as vezes descíamos até o quarto dos caracóis
e lá ficávamos
ouvindo o mar sussurrar em ondas as canções antigas
eramos como borboletas azuis pairadas no ar.
Hoje
nossos dedos se enlaçam aos dedos da nevoa
em uma áspera dança
e somos apenas o corpo sem a sombra para descansar.
Desaprendemos a arte dos teares
esquecemos como acordar juntos
o teu calor não mais  afaga o meu corpo
a cama ficou só
os lençóis amassados se dobram ao antes
exilados no espelho...
Desmanchamos figuras enterradas na saudade
tumulo dos instantes...
Ainda-me encontro no teu silêncio
na memoria
Deito-me sobre a tua palavra
e tua ausência é uma cidade perfurada
um desfiladeiro que se abre aos meus pés
ainda sei pronunciar com os olhos
as vogais insolúveis do amor
Passeiam sombras na pele das casas
te espero sentado na cadeira de balanço
e sei
o amor é o exercício do encontro
mas traz no seio uma estação rodoviária.
Lembro de tuas mãos ferindo o vento
quando pronunciaram bailando no ar
Adeus.
Outra vez amanheço deitado no saveiro
sem a lua negra
apenas o cálice ferido pelas lagrimas
e o teu nome escrito nas asas do pássaro
voando dos meus lábios.
Estou dentro desta canção triste
tocada pelas gaivotas esvoaçando no ar
te amo
já não digo
sabem os meus olhos
a cada ausência deságuo no teu silêncio.

Sandrio Cândido

4 comentários:

Carla Diacov disse...

deságuo no teu silêncio.

lindo!



beijo!

Roberta disse...

belo, Sandrio. silêncios e distâncias, um saveiro partindo, a tarde desabrochada em adeus.

dade amorim disse...

"o amor é o exercício do encontro
mas traz no seio uma estação rodoviária." A grande contradição, eis o que nos faz desaguar no silêncio do outro.
Um poema tão lindo, Sandrio!

Beijo

Janita disse...

Querido Sandrio.

Poema lindo este que me deixou encantada.
As ausências daqueles de quem gostamos sempre são tristes, porque nos fazem dasaguar no silêncio no outro.

Um grande beijo, meu amigo.
Grata pelo teu carinho.

Janita