15 de abr de 2012

Acordo dentro de um quarto sem lâmpadas

está escuro
não tenho lâmpadas em mãos para acender
deram-me apenas uma canoa sem os remos
estou só e perdido em alto mar
as mãos cansadas de rasgar ondas
a boca salgada
debruço-me sobre o fundo da canoa
busco traçar uma rota de navegação
mas jogaram ao longe a minha bussola
e os mapas estão todos molhados
tenho apenas um corpo,
dentro um vulcão quase em erupção
e o desejo de ser algo
a possibilidade do infinito me inclina
mas não há como enxergar o farol,
deve haver farol
em alguma ilha perdida neste oceano.
As vezes sou como uma ilha
ando necessitando aprender a ser continente
as ondas batem no casco da canoa
ameaçam afundá-la
há seres desconhecidos dentro destas águas
por vezes eles ascendem ao alto e afundam
sem jamais permitirem ser capturados
trago esta angustia arenosa de percebê-los em vultos
sombras dispersas a luz da noite
um silêncio de vigília me assalta a fala
todo silêncio é como um olho acordando
as pálpebras batem no colo do indizível
mas são feridas com seus braços de luzes
por isto todo silêncio sangra...
Tambores agridem o meu pensamento
batem atabaques em meu peito infantil
já não consigo adentrar a formula estática
estou fora desta sociedade de provetas
nada sei sobre os microscópios
estou só
é escuro e vazio o meu quarto
só me resta continuar rasgando ondas.

Sandrio Cândido

5 comentários:

Samara Bassi disse...

é só fazer silêncio que a luz que acende, vem de dentro.
ascende
transcede
esquece as agústias envernizadas nos ocos das lâmpadas queimadas e dispersas num vácuo que não seja os dos olhos, mas que somente brilham pra iluminar qualquer (in)cômodo escuro.

Meu carinho de saudade, San.
Meu beijo
Sam.

Marcio JR disse...

Olá, Sandrio.

A Sam me convidou para conhecer teu espaço, e ela não brincou. É muito bom.

E sabe? Nem sempre é vantagem ser continente. Basta ser uma ilha aberta, receptiva. Hoje, o mundo anda estranho, e nem sempre estamos dispostos a dividir fronteiras ou limites.

Quando ilhas, se não queremos intrusões, fechamos as visitações. Afinal, não é todo dia que estamos na nossa melhor condição humana, não é? E neste momento, nada como estar no meio de um oceano.

Grande abraço.

Marcio

« Katyuscia Carvalho » disse...

Jogaria a ti não o remo, nem a bóia... essas coisas com que se salva um corpo... jogaria sim uma rosa-dos-ventos, mas esta rosa, só a alma de cada um sabe da rota.

Belo imergir, Sandrio.

Um beijo.

dade amorim disse...

Um quarto escuro pode ser triste e uma canoa sem remos é um problema a enfrentar. Mas a manhã trará a luz que faltava.

Um beijo.

Luiza Maciel Nogueira disse...

rasgar ondas é uma imagem inovadora! Não acreditei quando vi que ainda não era seguidora desse espaço, bom agora já me inscrevi :)

beijo