9 de abr de 2012

Afogamento escuro

Conservo irmandade com estas folhas fluorecentes
ambos dependurados em galhos quase a quebrar
apagando-se de maneira lenta durante o cio das noites.

Lastros da solidão misturam-se ao poema antes virgem
a morte dedilha em meu corpo a musica negra
o peso de suas mãos  tombam sobre meus ombros.

Há um copo vazio na cabeceira da cama onde durmo
tenho medo de não amanhecer, grito dentro do copo
ouço o eco bater como morcegos na parede escura.

Escrevo dissolvendo a saudade em cobertores de areia
o poema é a faca usada para cortar as veias do tempo
gotas de sangue diluídos  ajuntam-se no fundo dos olhos.

Sinto uma criança encalhada dentro do meu coração
as vezes machucando os meus sonhos com seus dedos
rasgando com pedaços de sol os meus olhos tapados.

Há pássaros construindo ninhos na minha garganta
cantando uma canção de ninar
vejo-me esquecer o meu nome dentro do nome da morte.

Homens atravessam-me com uma canoa sem remos
a estrada desmancha-se diante dos meus passos
estendo os meus braços magros e escuros ao tempo
mãos de terra e  arvores afundam-se em meus olhos.

Uma pedra afunda o  piano para o ventre dos mares
a morte surge a galope e debruça sobre o meu corpo
fico estendido em uma cama branca e gelada

Deitado para a solidão ancestral das coisas vivas
esperando derramar dos olhos amantes
aquele amor transmudado em gotas de orvalho.

Sinto as cinzas poéticas  inundar minha boca de vozes
todas caladas nos olhos úmidos das horas
Depois desço os meus passos para o seio da terra

onde bebo este poema e os ossos da solidão
consagrados em um cálice de neve
partimos enlaçados aos braços do vento
dançamos.

Sandrio Cândido

2 comentários:

Pedra do Sertão disse...

Muito bom passear por aqui...

Abrindo novas janelas de leitura,

Abraço do Pedra do Sertão

Lara Amaral disse...

Não há como não dançar, sua poesia nos guia no mesmo passo.

Beijo.