11 de abr de 2012

Apontamentos íntimos sobre a cidade

Isto não é um poema,entenda-me,é um estudo breve sobre a cidade
quero dizer
os ventres noturnos transpassados por estacas iluminadas
derramando nas bordas das madrugadas feixes de lagrimas
e de sombras
tudo artificial como a flor plástica depositada na sala de espera.
Já disse outra vezes
porém relembro  o esquecimento destas funduras interiores.
A cidade assombra-me
foge dos meus lábios uma gaivota ferida e trêmula, é noite
ainda estou a ler Emil Cioram.
Os homens deixam cair os joelhos sobre os altares gelados
rezam às maquinas
nego-me a fazer esta prece
acostumei-me a devorar desertos, não há consolo esta noite
a cidade cresce diante da fome
do silêncio arranhado pelos sons fúnebres
sepultamos os jardins com arvores transpassadas de fios.
A cidade orquestra uma sinfonia
quero dizer
da sua garganta jorra vozes metálicas, dos seus lábios derramam...
Aves de ferro constroem ninhos em sua boca calcinada.
Deparo com uma estranha visão
a cidade engolindo homens cansados
o  estomago de bronze inclina, rumina os passos fechados
vomita os homens que são nomes plantados em senhas
em cartões de plástico...
Uma porta giratória guarda o coração urbano
as veias crescem sobre o chão asfáltico, o sangue enferrujado
A cidade é como um corpo estendido
há formigas de ferro saltando da sua boca
saindo do estomago apodrecido, esfumaçado
dá nojo, dá medo
a cidade
quero dizer
esta ilusão banhada de sombras mortas no horizonte.

Sandrio Cândido

5 comentários:

dade amorim disse...

A cidade grande pode causar muita angústia, medos, sustos. Assim mesmo, há quem não possa viver longe dela.

Abraço grande, Sandrio.

Lara Amaral disse...

Muita interessante, Sandrio, muito mesmo!
Vai-se lendo e embrenhando-se em cada beco desse mundo que nos engole.
Perfeito!

Beijo.

Roberta disse...

Muito bom, Sandrio. Visões perturbardoras da cidade: formigas de ferro, portas giratórias que guardam o coração urbano, vozes metálicas, árvores transpassadas de fios.. Mesmo diante desse caos de artificialidade, o poeta derrama seu olhar recriador e inventivo, alimentando o ventre noturno das paisagens com suas próprias estacadas iluminadas, os versos. Deu-me sede: "acostumei-me a devorar desertos". Beijos.

Roberta disse...

estacas*

Dario B. disse...

Pacifico, sideral, entediado, caminho pela cidade como um animal dentro de outro animal. Um abraço.