18 de abr de 2012

Dissolver o meu nome no quarto escavado em teu nome

Impression: Sunrise [1873], Claude Monet


Prepara-me a mesa do sacrifício ao redor do coração 
assento e contemplo as borboletas azuis indo e vindo, 
dos teus lábios úmidos brotam grutas.
Seco os meus olhos com os cabelos do sol, 
as vezes eles são estendidos sobre a manhã 
ferindo a noite com os seus penteados de luz. 
a noite chora pequenas gotículas em forma de orvalho. 
Chamo o teu nome com todos os outros nomes 
em um só nome 
vejo desprender os astros adormecidos 
em uma estranha dança de sombras flutuantes.
Sei que existo, 
alguém enraizando os passos no horizonte esfaqueado 
ou alguém que morre do outro lado dos campos. 
morrer é acordar exilado em um quarto sem luzes
afogando os olhos na fonte cristalina do nada. 
Dispo-me destas roupas enevoadas e crepusculares 
alargo uma ciranda para o interior do coração 
preparo a terra para construir o jardim 
de lírios e de romãs 
a calçada de pedras começa a encolher-se,  
por enquanto tudo é abismo dentro de outro abismo 
um rosto trincado no espelho 
o anoitecer grávido de outros anoiteceres. 
estendo as mãos como uma criança em prece 
águia flechada nos olhos 
devorando para o centro as chamas ao derredor 
busco uma cama para os passos feridos. 
oferto os braços escavando o chão 
o pão sorvido com o suor das horas 
a lenha consumida nos olhos 
espero acontecer no arranjar dos fios 
dissolver o meu nome no quarto escavado em teu nome. 
ouço um cavalo negro escoicear a porta de casa 
acendo uma fogueira na boca do inverno
estou partindo. 


Sandrio Cândido 

5 comentários:

Daniela Delias disse...

Há tanta vida, tanta verdade em teus versos...

Bjo!

Lisa Alves disse...

Um cenário gothico, um lamento helenico.

dade amorim disse...

O poema carrega pedaços de vida.
"esperar é ir acontecendo no arranjar dos fios" - e sempre estamos esperando alguma coisa.

Beijo.

Nuno Rau disse...

que imagens fortes neste poema!
começando pelo nome, que tem qualquer coisa de alquimia, mas uma alquimia (que me parece) sem esperança, se sente incapaz.

gostei mto. Abraço,Sandrio.

Samara Bassi disse...

Nesse velejar distante que me assopra , resfriando o caos do fogo, como fosse o mesmo sol de teus cabelos, sei das borboletas somente! Elas são tão azuis como cor do céu ao meio dia, sem nuvem, nem lume. Apenas a vontade de fazer (c)asa nessa viagem sonora e rastejante na minha alma, regressa pelo teu nome.

Coisa mais linda, San.
Meu beijo e carinho,
Sam.