23 de abr de 2012

Teoria dos náufragos

Viemos do fogo.Éramos as chamas dançantes. Escorríamos por entre
as cinzas esparramadas na pele da lenha. Fomos as folhas verdes
caindo lentamente no coração vulcânico da terra.
diz nydia bonetti:
_"todos somos náufragos".
todos escorremos para o contorno das águas.
nos vestimos de ondas claras.
Quebramos na boca de uma praia cristalizada nos olhos do infinito.
eu digo
_poucos são os náufragos que sabem deslizar os dedos
 pelos corredores marítimos de conchas acumuladas
à margem brumal de nossos olhos.
Nós porém escrevemos
escrever é desintegrar as células da morte entre os dedos impermeáveis
é sangrar os pulmões da noite
o ultimo dos cobertores
à encobrir a pele esfriada de nossas errantes pálpebras.
Muitos são os náufragos mergulhados em piscinas de plástico
eles não sabem a arte de se fazer fontes
outros deitam o corpo despido sobre o rio e se fazem pontes
alguns lambem o fundo do mar e depois ascendem para a terra
molham os casacos do sol com sua língua afiada nas águas
derramam areias no coração do outono, gestando o inverno.
a estes acostumamos chamar de poetas
casas esvaziadas movendo-se na direção fluente do nada
partículas solitárias dançando em buracos escavados nos espelhos.
os poetas são cidades povoadas por fantasmas brancos
são redes de pescas usadas em fortes correntezas
são os pescadores de estrelas cadentes suicidas
as vezes plantam uma rosa no buraco escavado na mão de Deus
e choram
porque a lagrima é uma forma de condensar em nuvens insolúveis
a angústia do nada.

Sandrio Cândido

5 comentários:

Samara Bassi disse...

Fico nessa teoria até meus olhos se formarem leito, margem de rio pra navegar.

Escorro-me por entre os morros faciais. Diluo-me por entre as matas ciliares, nessas incurssões de umidificar.

Lindo, San.
Meu beijo
Sam

Tania regina Contreiras disse...

escrever é desintegrar as células da morte entre os dedos impermeáveis
é sangrar os pulmões da noite

Sândrio, você é um poeta que me toca, me envolve, me encanta. Parabéns sempre pelo talento!
Beijos,

dade amorim disse...

Escrever é ver a vida fora da vida, tudo que ela significa e fica invisível a nossos olhos da rotina.
Um lindo poema, com um traço existencialista.

Beijo, Sandrio.

Fernanda Fraga disse...

Sandrio meu querido,
Cada dia que passa sua escrita me comove.
Me emocionei lindo isso.
Louvado seja a poesia.
Há tempos não vinha no seu cantinho,
bom tirar horas e horas pra descansar a alma e os olhos por aqui.
Um beijo,
Fer.

Concha Rousia disse...

Certamente belo, nós somos naufragos que sobrevivem agarrando-nos à poesia, lindos versos amigo poeta, abraços