4 de mai de 2012

Dá-me uma flor de sendas abertas no coração da morte

O leito da morte. Edvard Munch 

Te escrevo com as grades estendidas sobre as minhas asas.
Contemplo o mundo pelos buracos abertos nos muros de dentro
estranho os animais correndo atingidos por flechas envenenadas
faz tempo tenho saudades de debruçar a cabeça em teu colo
ondular os meus dedos em teus cabelos crespos 
adormecer esperando que desamarrem minhas ondas. 

As vezes me perco devorando mundos impossíveis 
bato em uma janela fechada aos interiores 
as minhas águas fluem pelos labirintos amargos da solidão 
do lado de fora tudo aparenta ser tão real. 

Desde cedo aspirei possuir o mundo em um sonho inflável 
eram tantos os palcos para  o grande concerto
hoje não sei onde encontrar os instrumentos 
as vozes se quebraram nos degraus galgados 
algumas sangram,
insistem em  cortinas sujas de esperança.

Deste-me tudo o que havia na possibilidade do ser
mas nunca fui 
sempre estive e ainda estou
as casas da minha infância desmoronam na lembrança
e uma criança espanca as minhas noites .

Repare os homens extasiados pelas partículas de luz elétrica 
boiando seminuas
no quarto escavado dentro da lâmpada.
Repare as crianças hasteando os dedos avermelhados
contra os automóveis
e tudo que esbarra nas esquinas do sonho.

Fazemos parte da convulsão dos sonhos
observamos as pálpebras ardendo na aurora
o movimento das primaveras  respiradas pelo inverno
também esperamos a canção das barcas 
inadiável cancão 
estaremos junto as espumas do mar 
amanhecendo flutuantes em cascas de vento. 
disseram-me que o orvalho é a lagrima de aurora 
e os amanheceres choram o destino dos homens.


lembro de as vezes corrermos como cavalos soltos no pasto
corríamos com vento debruçado em nossos cabelos
depois nos sentávamos na relva ainda orvalhada
colhíamos um raio de sol adentrando os olhos da terra
Colhíamos espigas de milho como dois bobos
domávamos  no rosto os olhos tristes das tardes.

Esperávamos o futuro aconchegar as nossas esperanças
ah se soubéssemos que o futuro é uma ilusão
{uma estranha maquina de liquidar instantes aprisionados
e empoeirá-los na estante métrica dos retratos}
ficaríamos ali mesmo
sem nunca voltar a realidade das coisas de fora
vestindo-nos com a roupa lírica do orvalho. 

Diz-me:
_ Estou próximo de beijar a boca úmida da morte
porque todos os instante são como o ultimo instante.
pela ultima vez sento-me ao teu lado e olho-te
já não és o mesmo e talvez nunca foste
amanhã seremos outros deitados a sombra dos edifícios
são tantos os nós perdidos nesta galáxia de possibilidades

Digo-te 
_A morte não é uma estrada arquivada no nada.
Morrer é como se entrássemos em estado de clausura.
saímos no tempo
alargamos a vida das praias
esquecemos a estrada finita do outro lado da margem
estiamos os olhos
porque todos os dias chovemos lentamente nos telhados do tempo
derradeiras gotas rasgando um senda na terra árida
regando uma flor obscura no coração da vida
dentro de nossas bocas crescem línguas de fogo
passamos aquecendo os lábios do inverno
aspirando para a garganta da neve algumas brasas flamejantes
todas as estradas são consumadas na garganta das chamas.

Dá-me uma flor de sendas abertas no coração da morte
um girassol
ou uma magnólia saltando do ventre das cascatas 
descendo pelos cabelos escadios da lua
derramando pétalas pelos lábios do vento
descobrindo galáxias onde existiam buracos negros.

Somos como pássaros fazendo ninhos nos galhos da morte
levantamos junto as manhãs esfumaçadas
para trabalhar nesta casa desmoronada ao termino do dia
digo-te:  
_Esta noite ficarei grafando poemas em teus lábios
dá-me as tuas mãos afundadas nos olhos do tempo
amemos 
pois nossas bocas são como ventres gestando a liberdade. 

Sandrio Cândido 

8 comentários:

dade amorim disse...

Quando tudo aponta para o amor, o que mais é possível fazer?

Beijo, Sandrio.

Marceli Andresa Becker disse...

Belas imagens, belo poema.

Marceli Andresa Becker disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luiza Maciel Nogueira disse...

e gestar a liberdade é preciso. Gostei dessa viagem poética.

beijos

Carla Diacov disse...

VENHA NOS VISISTAR NA CASINHA NOVA!
(CISA NEM TRAZER TAIÉ!)
http://pramimidormir.blogspot.com.br/
braços! e bejins!

Lara Amaral disse...

Quantas imagens dolorosamente lindas neste poema, Sandrio.
Vc escreve como quem senta num campo, encostado numa árvore, captando a essência da natureza e a dor humana.

Beijo.

Sandrio cândido. disse...

Obrigado Lara, gostei desta tua imagem. O homem e sua profunda significância é o que me interessa.

Heyk disse...

Sandrio,
gostei do poema, ele usa pedras para falar de pedras. e se vale da linearidade da prosa para construir as menções a todas as coisas. tanto uma coisa como a outra nos deixa no campo conhecido do discurso exigindo do leitor apenas que contemple.

vamos continuar falando, pra pensar a validades dessas possibilidades.

Um abraço, fico feliz em conhecer seu espaço.