19 de mai de 2012

Meditação aos homens anoitecidos

Night in Saint-Cloud. Edvard Munch

Caem da grande arvore da vida os homens anoitecidos.Consumam-se
na terra como folhas amadurecidas
desesperadas de vida.

Derrama a escuridão pelos lábios das grutas. Miram os bosques
com os olhos segregados nos crepúsculos.

Alguns cipós amarram os passos derretidos nas águas sujas da memória.
As pernas eletrocutadas dançam rasgando as folhas da noite
misturadas na tigela onde foi sorvido o pão.

As laranjas crescem como balões assoprados,
por dentro as sementes misteriosas batem contra os gomos
elas possuem as paisagens desejadas pelas mãos que ceifam fontes.

As sementes desejam romper as cascas e passar.
Contemplar as matas crescendo além das cercas de arame.
As araras esvoaçando
a musica dos canários amarelos domando o vento
rasgando os ouvidos metálico dos sinos.

Os habitantes dos troncos chamam o nome dos homens anoitecidos
o nome é o primeiro assassinato a qual foram submetidos.

As formigas circundam a língua dos deuses
tapam com suas folhas os olhos das lanternas que alumiavam a floresta.

Os homens anoitecidos saltam os mares e afundam nas dunas
enquanto os estiletes perfuram a garganta dos poços.
e as tardes vestem de chuva os olhos  ensolarados.

São estes homens que sonham uma tenda em outras galáxias
uma tenda remendada com o pano da terra.
São eles que insistem nas passagens
enquanto varas são enfiadas em formas de muros
impedindo os olhos de alcançar outras paisagens.

Eles  encostam seus ouvidos nos lábios afinados dos violinos
cantam uma musica de sedas amassadas nas mãos do destino
como se fossem as pétalas molhadas na luz da solidão
esperando a noite despir-se aos pés da melancolia.

Eles olham a matéria  das madrugadas ser trabalhada
nas mãos cansadas do firmamento.

Os homens anoitecidos contemplam o pensamento invertebrado
o pensamento embriagado nas chamas
destilado junto a solução de minerais e de álcool.

Estão fartos de aquecer espelhos.Cansados da inútil metafísica dos cosméticos
das formulas dissecadas em bulas farmacêuticas
da mascara talhada com bisturis...

Tristes homens vagando errantes na cidade
trazem uma plataforma de mar grudada em seus olhos.
Sabem estar enclausurados nesta felicidade de shoppings e automóveis.

Eles despem as palavras e afundam no vazio dos vocábulos
recuperam o silêncio das chagas abertas no ouvido do tempo
espantam-se com os poemas  nadando em aquários de nuvens.

Explodem a beira do vácuo como se fossem partículas de luz
desvelam os olhos cansados do infinito.
Os homens anoitecidos morrem abandonados a margem da ausência.

Sandrio Cândido

5 comentários:

Samara Bassi disse...

Me vi entre eles, minha visão turva e adormecida num canto de bosque, encostada num tronco seco de árvore.
Vi ainda, meu vulto de pensamento como se fosse a sombra das minhas perturbações agonizando minhas últimas horas, minha insanidade restrita entre o sono e a vigília.

Adormeci. E me vi além.

Saudades daqui, San.

Meu beijo,
Sam.

Daniela Delias disse...

Tua escrita é densa, forte. Tem uma marca tão tua, tão bonita.

Bjo meu, Sandrio

Carla Diacov disse...

menino tão querido!



prometo-te tão mais tempo a ler-te!



beijos!

Tania regina Contreiras disse...

Te leio e me mociono, muitas vezes. O poeta que há em ti é tão forte, tão genuíno, tua poesia é tão tua...e tão minha quando leio e sinto.

Belo e profundo, Sandrio. Continuarei lendo. Há muito aqui, não quero que me escape.
Beijos,

ONG ALERTA disse...

Cheguei aqui por intermédio da Juliana, escreves com o coraçáo, muito lindo, abraço Lisette.