2 de jun de 2012

Recordação da ausência

Estamos deitados na proa dos saveiros. Tu enlaças os teus dedos aos meus cabelos. Beijamos-nos. Tu encostas a tua língua em meus lábios. Pronunciamos o idioma das candeias ardendo. Canta-me uma canção de chuvas marítimas. Destas que ouço quando a solidão esvazia as gavetas do meu quarto. Tu aproximas o teu corpo e fazes do meu braço uma cama. Deito-me. Deitamos. Amanhecemos dormindo em conchas de eternidade. Cai uma fotografia no chão. Rever uma fotografia é como respirar poeiras dispersas nos anos. A musica que ouço agora diz que tu foste embora. O teu rastro alimenta as minhas estradas consumidas na saudade. 

O tempo é o esteio das minhas tantas súplicas. Eu que ouvi o ar rasgado por teu canto, tão cedo bebi a taça do meu próprio pranto. Promessas de eternidade suprimidas por acasos, carícias estáticas, distantes. Não foi a vida a ladra da nossa sinfonia, foste tu quem a silenciou. Onde estão as promessas? Tu deitavas comigo naqueles lençóis de flores acumulados na lembrança. Hoje as fotos. O farol perdido para o cais dos teus olhos. Sento-me com a caneta devorando a tua ausência. Convenço-me não ser a lembrança a melhor companheira do meu vazio. Meu grito silencia. Desisto. As tuas mãos já feriram o vento. Rasgaram a eternidade com um adeus. 

Saudade é mesmo o lugar onde deixamos habitar aqueles que partiram, mas não souberam couber na vasilha do esquecimento, contudo é preciso esquecer, mesmo que seja o esquecimento uma faca enfiada na garganta. Ainda que o esquecimento se faça sangramento nos olhos. Preciso esquecer-te. Talvez você continue a ser a parte que faltava. A única morada onde minha alma sente-se em casa. Mas deixo-te ir. Porque foi quando partiste que ficastes. Inutilmente... A sombra do passado em que não habito em que não posso habitar. Eu parto... A estrada que eu sigo é para longe, não para o antes. Nós dois fomos, não somos mais...

Sandrio Cândido 

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