5 de jul de 2012

Amanhã, o retrato

Os sinos dobram dentro de nós.Suavemente anoitece.
De alguma forma sempre fomos eternos.
Entre a exclamação e a virgula, nadamos...

Hoje nos abraçamos, amanhã o retrato, empoeirado.
Tanto mato cresceu por cima da nossa infância
fechando todas as portas da casa.

As ruas existem, perdidas entre as árvores
as ruas existem e dizem o nosso nome.

Grita por dentro da casa uma criança.
Canta embriagada,
entretanto,
nossos dedos não sabem alcançar as chaves .

Andamos muito. Meio dia, sentamos a beira do poço.
De nós só temos o caminho
e algumas malas esperando ser arrumadas.
No pensamento, um vento forte balouçando a nau.

Aos nossos pés acorda o talvez, suavemente levanta,
estendemos as mãos para apanhá-lo
desde cedo temos sorvido a possibilidade.

Gelados espelhos.Túmulos para descansar o tempo
a lápide, saudade.
De alguma forma sempre permanecemos
regressamos.
Os pingos de café no fundo sujo das xícaras.

Bebemos as ultimas gotas de orvalho.
Sentados junto ao fogão olhamos arder a lenha
a vida arde alto, queima, depois fumaça.
De nós algumas cinzas restaram.

Temos medo de não ter estado conosco.
Por vezes sentimos a vida como uma prece silenciada.
Talvez a existência nos tenha pronunciado.

Ninguém sabe porque estamos aqui.
Porque rasgamos ondas.
Porque lavramos o coração nas águas do mar.
Ninguém sabe se estamos aqui.

Sandrio Cândido

5 comentários:

Lara Amaral disse...

O poema começa com essa ideia de sermos eternos, depois vai colocando o talvez, as dúvidas que nos aparecem, até chegar a este ponto de duvidarmos da própria existência.

Muito lírico, filosófico, seu modo de escrever encanta, me faz pensar, me deixa aqui te relendo. Me identifico muito, é um mundo à parte aqui no seu blog, um mundo onde me encontro.

Beijo.

Leonardo B. disse...

[e as memórias,

que se sobrepõem à pele, ao corpo que as traz por ferida, cicatriz e de novo a pele,

guardam-se, acordam-se, e adormecem de novo.]

um imenso abraço, Sandrio

Leonardo B.

Carla Diacov disse...

Uma eu grintando junto e sem alcançar a chave, sem o muffim do pais das maravilhas...


Beijo com lágrima.


lindo!!

marlene edir severino disse...

Nunca saberemos ao certo
porque rasgamos ondas

continuamos apenas
ainda

Abraço, Sandrio!

Déborah Simões disse...

Adoro seu blog, adoro seus textos..
Fazia um tempo que não vinha por aqui!!
Bjok.