25 de jul de 2012

Nos meus olhos uma paisagem adormecida

"Buscamos na vida a casa dos nossos nomes" 
Roberta Tostes Daniel 

Nos meus olhos uma paisagem adormecida.
Um barco povoado de estrelas cadentes
ancorado no vazio.

Os guardas chuvas estão todos fechados agora
penso que nunca foram abertos
basta sentir os olhos molhados pelo vento norte.

Os telhados desabam
debaixo dos passos uma gruta aberta.
Emerge estacas pontiagudas
onde os pés ensaiam a dança azul da vida.

Não é preciso abrir as gavetas para ouvir. 
Os espelhos gemem de frio por dentro do corpo.

A ausência. 
Um doce céu sangrando
uma ferida aberta na nuvem
embora vazia esteja a casa no cosmo.

Os gritos por dentro sufocados pela chuva 
sugando os passos do amado errante,
os meus andam sobre os degraus feridos 
galgam a montanha por baixo da duvida.

Nada como esperar
o deserto se mudará em jardim
diz o salmo rezado em silêncio pelos lábios do livro
lábios mudos
de um silêncio cataclismo.

Silêncio rodeado de casas incinerados
uma é a minha
eu sei
só não soube qual porta devo percorrer para adentra-la 
se há alguma porta 
talvez haja 
uma barca rachada 
uma barca inclinada para o fundo do oceano
para o centro rodeado de palavras encurvadas.

Sandrio Cândido 

8 comentários:

Lara Amaral disse...

Vê no poema a esperança da palavra ser pronunciada, derramando a chuva que está suspensa, libertando as vozes presas nos objetos, nos corpos. Vê-se a esperança mansa, mas há um medo nela que quase grita.

Belíssimo!

Beijo.

Tania regina Contreiras disse...

Imagens oníricas essas...Há qualquer momento pés alheios adentram esse sonho, e são meus, que me vi dissolvida nesses versos. Hoje é dia de me encontrar por aí, penso.

Belo, Sandrio!
Beijos,

Daniela Delias disse...

Ler o teu poema com esse tanto de mar como imagem de fundo é alimento pra alma.

Te deixo uma rosa.

Bjo, Sandrio

Bárbara Queiroz disse...

Tão bom me perder nos devaneios dos teus versos...

Luciana Marinho disse...

o homem se encontrando com a tão antiga companhia do mar. o corpo do homem se integrando ao corpo do mar..

e ficam versos lindos, como esses:

"Não é preciso abrir as gavetas para ouvir.
Os espelhos gemem de frio por dentro do corpo."

abraços.

Luciana Marinho disse...

o homem se encontrando com a tão antiga companhia do mar. o corpo do homem se integrando ao corpo do mar..

e ficam versos lindos, como esses:

"Não é preciso abrir as gavetas para ouvir.
Os espelhos gemem de frio por dentro do corpo."

abraços.

Carla Diacov disse...

Dar um mergulho por aqui e ir ao longe, sossegar o que há de chato, contubérnio, dessas tinas em mim e voltar a mergulhar aqui!!!



Beijos!

Patrícia Pinna disse...

Boa tarde, Sandrio. Passando hoje aqui e conhecendo o teu blog.
Parabéns pela profundidade nos teus versos e tenha um bom domingo.
Beijos na alma!