16 de ago de 2012

Canção triste

Os meus olhos se voltam as paisagens da minha terra
não há palmeiras
nem sabiás
há armas repetindo uma nota surda

um piano de flocos deslocando o sonho
sepultando o exercício do amanhã.

As calçadas são as únicas casas restantes
não para os anjos
são para os mendigos do espetáculo
aquecidos com os cobertores da modernidade.

Alguns estendem seus mantos de aço
sobre as flores de arame
cobrindo os jardins abertos no coração urbano.

A voz metálica da mãe grita.
O filho debruçado em seu braço já não dorme
apesar de nunca poder acordar.

Estranho filho que partiu sem desejar
não é pródigo posto que não pode voltar
e nunca escolheu partir.

Todos os dias é um morto
a canção cinza atravessa o tímpano do morro
cinzas e sangue poluem as águas da esperança

é tão triste amar a realidade.

4 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

Menino, poeta, amar a realidade é enlouquecer? Será?

Tu me fazes pensar...

Beijos,

Daniela Delias disse...

Incrível. Passei o dia sintonizada nessa mesma tristeza/realidade, sentindo como tu. E há pouquinho estava ouvindo "Sabiá" com Tom Jobim. Teu poema me acertou em cheio. E é lindo.

Beijo, carinho

Dani

Carla Diacov disse...

Linda tristeza embebedante!!!


beijos!

Juliana Lira disse...

A realidade é cruel demais, a poesia a torna mais suportável.

Milhões de beijos