25 de ago de 2012

Minas ficou no fundo da infância

Peixes descem pelos vasos sanguíneos
galgam as artérias do coração
faz murchar os lábios vermelhos.
Aves migram da boca
searas de espinhos crescem sobre a língua
agulhas negras são enfiadas no poema.
A pedra do silêncio cravada no espelho
rente ao rio uma rosa plástica cresce
nada interessa aos meus olhos
tenho as pálpebras abertas sobre as tulipas
que florescem no corpo do inverno.
Secou o rio da infância
minas ficou no fundo do leito
coberta de areia
as águas claras são desertos agora.
Preciso inventar uma casa na cidade
construir ninhos em árvores de pedra
preciso esquecer-me aqui dentro.
Os campos sumiram
as borboletas azuis morreram  no jardim
espantado
tento entender o muro cercando os olhos
aprendo apenas a falta
desaprendo os gestos da calma.
Já não ouço as pedras brincando de amarelinha
nos poços do fanado
tenho saudade de sair no mato seco
ouvir os passos sobre as folhas exclamarem:
(Vem vindo alguém do outro lado)
o eco responde:
alguém, alguém, alguém!
Tudo tão vazio
lagos atravessados na garganta do sonho.
Sou tão pequeno Adriana
minas cumpriu sua sina
ficou entalada no meu poema
eu também fiquei entalado na infância.
Hoje a vida é um arame farpado
os meus dedos aprenderam a estica-lo
faço uma cerca em torno da solidão.
Nos meus olhos
crescem as raízes de um lírio branco
não é preciso acordar cedo
a lavoura é dentro do meu coração
trabalho com a enxada do poema
devo carpir as ervas daninhas
lavrar as pedras.
Aqui dentro os grãos de trigo amassados
regressam a terra primeira
esperando germinar em outro coração.
Perdoa-me estes versos tristes
há tanto tempo desistir de ser poeta
aos poucos me tornei um lavrador
algumas vezes tento descansar a vida
brincando com as palavras.
Quando criança
minas ardia nos cérebros incandescentes
candeeiros escorregando para o futuro.
Hoje minas é apenas uma roça
lavrada dentro do meu coração.

Sandrio Cândido

5 comentários:

Lara Amaral disse...

O poeta e sua sina de enterrar o passado no poema. Há sempre sonhos, casas, e até mesmo cidades entaladas nos versos.

Belo, Sandrio, muito belo!

Beijo.

Tania regina Contreiras disse...

Belos paralelos entre o ontem e o hoje. Mas o que fomos continua. Troca-se de ferramenta. O poema já existia nos gesto, na lavoura, nas imagens que sumiram no pó da estrada. E continua. O poeta insiste, Sandrio, porque é sina mesmo.
Belo poema...
Beijos,

Daniela Delias disse...

"A lavoura é dentro do meu coração".

Queria poder comentar sobre o quanto achei lindo, mas é impossível...fico aqui repetindo o verso.

Bjo meu

:)

Fernanda Fraga disse...

Sandrio chorei, chorei.

Esse poema é um absurdo de belo (um absurdo captou?)

Beijo.
Fernanda.

Sônia Brandão disse...

Cada tempo deixa uma imagem dentro de nós. Imagem do que fomos, dos dias que nos sorriam.

Belo o seu poema.
Um abraço.