6 de set de 2012

Poesia Contemporânea: Ailton Volpato



1. Espírito em borda

Só há bordas, margens,
Cais, nada mais visível
Aos planos oculares.
Aqui, tudo cai e jaz caído
Na verticalidade imposta
Éter à barro...
Embebemo-nos de bordas,
Rebocos no vazio,
Mutirão que pinta o ar
E a arte faz vento -
Ou o vento faz arte?

Dobras no cais, onde a barca
Não se aproxima... Há que ser
Tocada por algum espírito
Intocado!

Rumores que escapam da posse,
Ainda... Escape ao lado,
Lado-a-lado das margens,
À fúria da flâmula que arde
À procura de todo espaço.
E há o que escapa: a volta,
A dobra enérgica que afasta
Toda possessão!

O litoral, termômetro morno,
Convidá-nos a sermos bordas
Menos rebuscadas
Limpas em areias.
Desmancham o ser em líquidos
Que colorem o mar:
Homens n'água!
Escorrem atormentadamente
Levadas ao ritmo brando da brisa,
Aceitando ser margem encalhada.

Se avistares a dobra intocada
Do cais inatingível, dobre-se
Reverente: aquilo que não atingimos
Exige-nos reverência.
O liame intocado
Deve ser reverenciado,
Ainda que seja um cais,
Uma margem ou uma borda.

No calor, o que mais querer,
A não ser diluir-se lascivamente
Não temendo escapar aos princípios
Que prendem o corpo?
No calor, o corpo é borda,
Margem e dobra; dele
Sobe-desce raios brilhantes:
O corpo é margem em espetáculo
De cor, quando molhado, o sol
Reflete sua glória.
A areia, embebida do
Caldo quente dos
Homens n'água,
Contém espíritos banhados
Em bordas...

E o corpo é espiritual em suas dobras
Que sobem-descem no vão
Intocado por espíritos intocados;
Corpo-cais, onde as barcas
Não conseguem tocar.



2.

O Céu está cinza, e eu estou feliz;
O vento bate em meu rosto, e eu estou feliz;
Vejo árvores, casas, gente, e eu estou feliz.
O céu cinza não é em si mesmo alegria,
Nem o vento batendo em meu rosto
E muito menos os meus frágeis campos visuais.
É em mim que tudo acontece
Da forma que vejo acontecer.
Tudo está aí fora, funcionando
Como se eu inexistisse...
O mundo é o que há de mais inumano
E minha vida é a tentativa de humanizar o mundo.
Irrito-me quando a nuvem passa rápido
Impedindo a contemplação da face de quem amo.
Mas o que é a nuvem? Tudo, menos o meu amor.
Irrito-me quando chove em meus desejos
Mas a chuva cai ainda assim, provocativa,
Caçoando de minhas vontades e dores
E penso que o mundo é meu adversário
Lamento, grito e me desespero
Por ser derrotado todos os dias
Onde tudo permanece como deve ser. Mas como deve?
Não sei se o que ocorre deveria ocorrer...
...sei o que ocorre? Sei se ocorre?
Quais as garantias? Tudo funciona; posso conhecer
Seu funcionamento, mas jamais querer que funcione
Como tento fazer funcionar minhas percepções.
Meu mundo? Piada, caos, vazamentos.
Nem meus cômodos interiores posso arrumar
O que posso querer da vila inteira?
Mas ainda assim, lamento, grito e me desespero.
Me alegro vendo o céu cinza, sentindo o vento no rosto,
Vendo árvores, casas e gente; irritando-me quando
As nuvens deformam o rosto de quem eu amo.
Continuo carregando as pedras, erguendo muros
E o vento insiste em derrubar o que erijo...
O vento, ah!, o mesmo vento que me alegrara
Agora destrói as bases dos meus planos
O mesmo céu que me alegrara é agora a minha náusea,
Casas? Impedem a minha visão; árvores? Sujam meu pátio
Gente? Me cobram, exigem de mim atenção...
Inconstância, intransigência, vaidade; três cortes
Que me separam das coisas como são.
E das coisas o que são?
E a cada dia resisto, vivo resistindo
Existo como símbolo e arauto da resistência.
Da resistência entre o que é e como é,
E a vida sendo o único terreno a ser aplainado.

Ailton volpato é estudante de filosofia, poeta e seminarista.

2 comentários:

Carla Diacov disse...

LINDOS!
DE AUTENTICIDADE INCRIVELMENTE LINDA!

Cristina Lira disse...

Olá!
navegando pela net encontrei esse espaço riquissimo e aconchegante e aqui vou ficando e acompanhando.
Desde já deixo aqui meu convite e quando puder sinta-se a vontade para ir em :

http://passossilenciosos.blogspot.com

Beijos e semana de paz!
;)