23 de nov de 2012

É inútil acordar as palavras

É tarde
nada diz-me as janelas
fecharam-se mim todas as portas
fez-se a escuridão
desconheço os homens
aos poucos eles se dissolveram
transmudaram-se em maquinas
perderam o caminho do coração.
Sou estrangeiro em nossa época
busco exílio na beleza
mas ela foi bombardeada
em seu lugar
o rio de Heráclito cresceu
invadiu os campos de rosas.
Inovar, porque?
A natureza está muda,
a ciência não me salva da morte
os deuses, inúteis!
Secou todas  as folhas das luzes
eu porém fiquei
habitando o ventre do desespero.
Sou apenas um peregrino
conheço as paisagens devastadas
elas naufragaram dentro de mim .
Olhos frios alcançam minha estrada
não sei falar sobre o mundo
dizer para que?
Amanhã será inútil acordar as palavras
hoje também,
os barcos não podem atravessá-las
nem pianos, nem rosas
apenas as metáforas secas
cadáveres expostos esperando ser dissecados.
Eu quero apenas ler poesia
é possível doutor?
já não chove dentro do poema
não há luz...
Entretanto
ainda ando na praia,
vago em busca de um farol
espero alguém acender o fósforo
dissolver o escuro século.
Desejo uma barca dentro da beleza.

Sandrio Cândido

4 comentários:

António Eduardo Lico disse...

Bela poesia.

Carla Diacov disse...

"uma barca dentro da beleza"

coisa mais linda, Sandrio!


beijão!

António Eduardo Lico disse...

Bela poesia.

Amanda Lemos disse...

Gostei muito do que vi !
Muito difícil encontrar espaços bacanas como este :_)

Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir...

http://bolgdoano.blogspot.com.br/

Agradeço desde já !