3 de fev de 2013

A canção de acender velas

I

As paisagens marítimas estão nuas, ausência de firmezas possíveis. ainda não estou acostumado a ti, imensidão azul, posto que não sou do teu espaço, sou um peregrino dos bosques. Em Minas não são de águas as passagens, mas de estradas imersas na poeira. Tu és estranho à mim, és um estrangeiro em mim. Não buscarei em ti os lírios que desejo, porque em ti encontrei tempestades, quartos náufragos, mãos boiando no vazio. Desconheço a calma dos teus dias serenos, conheço apenas a volúpia das tuas ondas possuindo os corpos, desmanchando teares. Ainda prefiro as chuvas, os rios lentos descendo as montanhas, as bocas fechando-se sobre os poços.Tenho uma alma telúrica, acostumada a desertos. É um mistério os teus cabelos aquáticos ondulando os meus dedos melancólicos, enquanto perdura o ofício, decapitar a memória. 


3 comentários:

Luciana Marinho disse...

quanta delicadeza... e as águas como imagem forte da busca humana pelas profundezas de si. além da beleza do todo, saio levando, particularmente, a poesia daqui:

"É um mistério os teus cabelos aquáticos ondulando os meus dedos melancólicos, enquanto perdura o ofício, decapitar a memória."

abraço!

Matilde Luís Branco disse...

gosto do sabor a mar deste texto

mARa disse...

Esplendorosa prosa poética!

As imagens brotam a cada linha entre as linhas.

abço fraterno!