10 de mar de 2013

Insônia

Em silêncio
desespero-me
desejo as aves na cintura dos anos
estendo as mãos
recolho os ramos secos
adubo os tímpanos metálicos
a linguagem se dobra sob o cansaço.

Ergo-me
faço do corpo um monastério
contemplo os bosques crescendo
a liturgia dos frutos madurando
os cravos no poema
as flores brotando dentro das chagas.

Exercício rude a escrita
catar as palavras desgarradas do limbo
a madrugada devorando meus olhos
o sono degolado debate no chão
é uma prece atravessar a noite
atracar no amanhã.

Despertem senhores de terno
tragam-me tijolos
é preciso enforcar as horas
circundar o curso dos rios
evitar a explosão das correntezas
perigosos são os lábios afluentes.

Artesão das grutas
estanquem os bêbados
nos espelhos a memória destila-se
há demasiada ruína no silêncio
pouco sei da casa
apenas busco
deságuo em ruas infindas
habito-me em estado de escavação.

Sandrio Cândido

2 comentários:

António Eduardo Lico disse...

Bela poesia.

Patrícia Pinna disse...

Boa noite, Sandrio. Interessante o seu espaço, suas poesias, tanto que fiquei por aqui.
Essa poesia é perfeita, repleta de significados num único contexto.
Brincar com as palavras, fazer uso delas é coisa muito séria.
Perdemos o sono e com ele vem a inspiração.
Fique na paz de Deus!
Beijos na alma!