3 de jul de 2013

vocação

eu te chamei quando estava debaixo da videira
estavam verdes as pastagens
os rios iam e viam pelos nossos corpos
tudo era belo.

hoje as chuvas cessaram
a noite desceu aos teus olhos enclausurados
retirei as vestes da tua oração
agora é possível olhar as cinzas
resto do paraíso.

eu sei o que tentas dizer com este teu grito,
é muito frio onde tu repousa a cabeça
o teu corpo rasgado clama pelas minhas mãos
ninguém compreendeu as tuas silabas feridas.

eu te chamei para isto,
porque o machado precisa de galhos
e tu estavas por se podado
porque desde antes tu foste a oferenda necessária.

quando as figueiras ainda cresciam
e os sinos costuravam o tempo dos peregrinos
eu te chamei para seres um bambu
por onde escorreriam as minhas lágrimas.

sandrio cândido

3 comentários:

António Eduardo Lico disse...

Bela poesia.

Álly Ferreira disse...

Há palavras, tremulando aos nossos olhos, que ajudam a nos matar.

Álly Ferreira disse...

Há palavras, tremulando aos nossos olhos, que ajudam a nos matar.