5 de fev de 2014

sobre palavras e mangabas

(foto: Artur Corumba, Flickr/ CC BY-NC-AS 2.0)
 

quando eu era criança gostava muito de comer mangaba - é uma fruta que dá entre os eucaliptos no interior de Minas Gerais- o sabor doce, a água escorrendo por entre os dedos, aquela coisa infantil de ficar horas procurando as frutas caídas em noites interiores. não era apenas as mangabas, mas todo o ritual que havia nelas.

hoje fiquei pensando que escrever tem um pouco disto: esperar que a fruta caia durante a noite, demorar horas buscando no chão a fruta boa, uma procura pelas coisas inúteis, pelos pequenos prazeres, como degustar uma mangaba ou uma manga rosa dependurada no galho mais alto.

assim como as mangabas, há palavras machucadas, que não cabem no poema, mas que ficam lá forrando o chão, até se transformar em adubo, para fazer brotar outros árvores cheinhos de palavras.

eu ainda sou aquela criança catando mangabas só para tentar descobrir alguma beleza nas chapadas tristes que chamo de vida.
 
Sandrio Cândido

Um comentário:

Graça Pires disse...

Um texto muito belo. De regresso à infância. De reflexão sobre a vida e as palavras.
Abraço.