24 de mai de 2014

Aquela mulher atravessa o meu silêncio

aquela mulher atravessa o meu silêncio
uma espécie de corredeira enforcada
tem os olhos tristes

a cabeça fria
os cabelos despidos de toda sensualidade


debaixo da túnica lhe envolve um arame 
muito tempo estancado no rosto 
poços soterrados no corpo 
mãos flácidas 
os joelhos marcados pela espera de deus

eu a amo de uma forma intensa
em longos invernos estamos sentados 

contemplando o crepúsculo domar os sonhos
fiando cobertores aos filhos abortados 
lavando o quarto para o menino dos lírios

com ela atravessei o silêncio da esperança
enquanto a poesia esqueceu de nos visitar
deixando infértil os nossos olhos

ficamos incapazes de gestar as chuvas
embora persistíssemos no gosto das goiabas


tínhamos um peixe nadando no peito
a roseira alastrando na garganta
vertendo coágulos de luz
estranha gruta sorvendo a palavra

estávamos juntos quando ela foi devorada

as vezes eu ouço os seus gemidos
enquanto os cactos brotam na linguagem 

não há mistério
apenas a vida fechada em ataúdes
a noite devorando o pensamento 


com ela aprendi a arte do  inútil 
demorar as mãos no cansaço da lavoura
ser os grãos posto na terra
deixar se fecundar pelo sopro do espírito 
existir em perpétuo estado de espanto 

fazer uma prece aos frutos invisíveis:

dá-me um pouco do teu sabor             
qualquer coisa para confundir a carne 

um pouco de beleza para devorar as sombras

dentes altos sobre os telhados 

uma morada no interior dos oceanos
alguma escada apontando ao infinito.

Sândrio Cândido


4 comentários:

António Eduardo Lico disse...

Bela poesia.
Bom fim de semana.

Graça Pires disse...

Um poema muito belo. Dá gosto ler e reler.
Abraço.

Karine Tavares disse...

Parabéns pelo teu blog!
Vem conhecer o meu: feitaparailetrados.blogspot.com

Karine Tavares disse...

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