26 de jun de 2014

Gavita

"gavita, gavita "
liturgia, cosmo, escarlate
todo o meu ser é um poema não escrito

escrevo em adoração ao cosmo
buscando um deus na manhã clara
ele se deixou perder
estendeu seu corpo no seio da noite

as suas mãos eram amoras
alastrando folhas pelo meu peito deserto

sou o desejo da palavra
a gramática ferida com sede do sentido
vocabulário desfeito em grotas
colméia de gritos
conjunção de todos os ancestrais

esse poema não foi escrito com a minha voz
alguém o fez anteriormente
semeou migalhas na mesa do verbo

alguém, um peregrino, talvez
o homem com uma igreja fincada no ventre
a mulher aberta aos lábios dos deuses

a luz elétrica desceu pelas minhas veias
sangrei lâmpadas na música das horas
eram candeias
o sopro do espírito galgando a linguagem
incenso perfumando a vida

sei que estou debruçado à mesa do mundo
uma estrela sacrificada me habita

comigo se alimentam as aves desesperadas
os rios crescem para dentro do poema
inaugura os sinos
enquanto os círios engravidam a noite

deus respira o mundo pelas narinas dos místicos
a noite é própria para o esposo
estranha liturgia tem a lua
estendendo os cabelos sobre o sexo do amantes

os jardins se formam nos úteros enamorados
se tornam azeite na esperança da lâmpada
o poema brota no corpo anoitecido

trago o cosmo sustentando por uma flauta.

Um comentário:

Tania regina Contreiras disse...


Belíssimo e apurado poema, Sândrio. Acho que vi Sândrios caminhando, crescendo, amadurecendo. Ei-lo agora. inteiro, perfeito.
Beijos,