19 de jul de 2014

Paisagem inabitável

Não aprendi dizer adeus, diz uma canção da minha infância, daquelas que fazem parte da memória sentimental. Lembro-me do papai com o seu radinho de pilha, em um Cansanção ainda sem luz elétrica, ao redor da lamparina cheirando a querosene e aquela voz irritante cantando. Só a frase me ficou, de toda a música, não gosto mais da dupla, mas a memória sentimental não escolhe pelos nossos gostos, ela parece ter vida própria.
 
É verdade! Eu não aprendi como dizer adeus, toda vez é a mesma coisa; o silêncio de um abraço e o aperto nos olhos, como se todo um rio estivesse contido nas pálpebras. O problema não é tanto o adeus, mas o significado dele. Como esquecer as manhãs da minha infância, quando eu e minhas irmãs saímos em busca das mangabas e dos pequis. Impossível esquecer os nossos jogos de futebol, quando a poeira era mais intensa do que os gols. É do mesmo jeito impossível esquecer as partidas de queimada no ponto de ônibus. Tudo isto é tão bobo, se fosse uma fogueira, seria apenas as brasas, entretanto, é isto o que aquece as minhas noites. 
 
Hoje há poeira ainda, mas não é mais de uma partida de futebol, é o jogo da vida e neste eu desconfio que esteja perdendo. A vida não perde e nem empata, ele quer sempre a vitória. É isto o que dói ao dizer Adeus, saber que tudo é breve e acaba um dia. O que dói é esse buraco aberto no peito. Para lá eu jogo tudo aquilo que não posso mais acessar, mas que fica impregnado em minha pele. A vida é uma coleção de retratos jamais revelados. A fotografia interior não cabe no papel. 

Não aprenderei dizer Adeus, mas saberei: Aquilo vivenciado por mim é de uma beleza tão grande que vale o sacrifício. Talvez eu perca mesmo o jogo da vida, mas não cessarei de desfrutar cada lance, nem que seja apenas para isto: Tornar inesquecível o instante. A dor da lembrança é também a prova de que algo se tornou eterno em mim. Não esquecerei, talvez seja essa a última forma de fidelidade, quando já não é possível acessar algo e mesmo assim ele continua a povoar o nosso canto com esse estranho sentimento chamado saudade.
 
Sândrio Cândido
 

Um comentário:

Graça Pires disse...

Gostei muito da forma como este texto está escrito e do seu conteúdo. Não vou dizer adeus...
Abraço.