15 de set de 2014

Ailton

foto: Ailton Volpato
 
 
 


ouve- assim cantam as aves, é setembro
escrever para habitar o vazio
antes de tudo, o mesmo, este que nos habita
sem nenhuma permissão 
o tempo transforma todos os outonos
amadurece a polpa da vida-
as vezes nos falta a chuva
aos poucos apodrecemos junto as videiras
a música de deus doma o nosso corpo
queda de joelhos a criança em nós afogado 
aprendemos cedo o tato da palavra
frágil instrumento
nela assopramos levemente
tentando romper a noite
galgar os degraus ao parto da claridade
acontecer por dentro do azul,
a palavra rasgada
trabalhada pelas mãos em comunhão
regando a rosa-
fizemos de nós peregrinos
talvez nem isto sejamos no amanhã
difícil desvelar a alma
outro é o oficio do século
é tempo de possuir um corpo
nunca foi tão forte isto
temos um corpo meu deus- por que?
algumas perguntas devem cessar
sem obter nenhuma resposta
estamos tateando o mistério do espírito
pairando sobre as águas
no eterno gênesis- devir de Heráclito-
apodreceu há muito a mesa do banquete
ficamos a espera das migalhas
lavando com poemas os pés do mensageiro
é sobre isto- fazer o reboco
e nunca cobrir completamente a cratera
o poema é inútil para dizer o silêncio
é esse o nosso destino
desde a nossa primeira solidão
é este o nosso único movimento
capaz de nos fazer comungar da dança.

Sândrio Cândido



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