1 de out de 2014

Desolação

depois do nosso século
nenhuma videira crescerá na morte
as flautas incendiadas
delicada beleza

últimos jardineiros
estando eles cansados de suportar
o pesado fardo do lírio
partirão em busca de refúgio

deles lembraremos com tristeza
quando ouvirmos tocar
outra sonata
então será o tempo do inverno

decerto é nossa última paisagem
nas colinas, nos montes
os pastores perdidos
as mãos suplicando balanços

ovelhas exiladas
desgarradas dos pastos eternos
sozinhas vagando
pelos enormes bosques escuros

quando descer o anjo
soando a trombeta
tentando recompor os córregos
não saberemos crer nele

demasiado distantes das fontes
imersos no deserto
a vida aos poucos esvaída
tantos monturos

é esse nosso último salmo
costurado em laranjas apodrecidas
recitado por monges embriagados
telúrica perspectiva do reino

onde ficou a nascente?

dela lembraremos
com a mesma saudade dos outros
aqueles que choraram
junto aos rios da babilônia

essa é a nossa foz
como esquecer o leito percorrido
até alcançar este mar?

ainda não estamos preparados
cedo chegamos ao oceano
canoas frágeis

insistimos em voltar as corredeiras
sabemos ser impossível

é essa a nossa sina
agora só temos as nossas mãos
nenhum caminho
mesmo os remos foram perdidos

ainda nos cabe a tarefa
de inventar por dentro do afogamento
outra rota possível

trazemos a memória da fonte
ainda o estranho desejo

regressar ao principio do rio.

Sândrio Cândido

5 comentários:

Graça Pires disse...

Chegar à fonte pelo cheiro da sede...
Um poema muito belo!
Abraço

Anônimo disse...

eu venho aqui às vezes.

Ally

Nidja Andrade disse...

Um poema muito forte, de muita sensibilidade!... estou te seguindo!... beijooO

Maria Rodrigues disse...

Belissimo poema.
Hoje venho especialmente para desejar a si e a todos os seus familiares e amigos, um Natal muito Feliz e que o Novo Ano seja repleto de alegria, saúde, paz e amor.
Beijinhos
Maria

António Jesus Batalha disse...

Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens
é um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco.
Eu também tenho um blog, Peregrino E servo, se desejar fazer uma visita
Ficarei radiante,mas se desejar seguir, saiba que sempre retribuo seguido
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Sou António Batalha.