31 de mar de 2015

Sob a forma muda

caminho muito além dos rastros
danço em combustão
trago na boca um poema

em mim perdura a colheita 
as mãos crescendo sobre o vazio  
adiando o  uso da veste

os jardins possuídos pela neve
comungo no silencio
meu corpo em prece espera 

faço do instante o epitáfio
imensa sacralidade é a borboleta
pousada em meus ombros

trago na garganta um barco naufrago 
meus braços cansados 
estou desfalecido
junto ao  cardume de tempo

muito distante está o farol
não o vejo
mas deve haver farol

enquanto nado
uma ilha cresce em meu quarto
resvalo nas pedras
primitiva forma de habitar o mundo

busco a luz  
na hora escura da noite
sou o devir
devo ser o olho transfigurado 
sob a pele do monge

trago paisagens não descobertas
em mim sobrevive
de maneira velada pelo medo
o desejo de escapar

os homens
(todos desceram a praia
ao supermercado
encheram seus carros
suas bolsas,
arrumaram novos dentes
celulares conectados com marte)

desejo o todo do mundo
esse ainda não é o meu  mundo
nunca o terei em mãos 
saudade do encontro adiado 

mendigando nos semáforo
crianças sorrindo
imensa graça não atravessar o tempo

os  jovens se beijam
nenhuma estrela na noite
e eles se beijam
amam-se sob a calçada fria
a angústia me devolve ao tempo

sinto em meus lábios o sangue
de um corpo atracado
concreto erguido entre árvores
lutando para desprender-se

alguém saberá decifrar seu grito?

Sândrio Cândido

3 comentários:

Graça Pires disse...

Trazer na boca um poema. Comungar no silêncio. Ter um barco a naufragar na garganta. Desejar o todo do mundo...
Tudo isto decifra o grito do poeta...
Um belo poema.
Beijo.

Nidja Andrade disse...

Passando, lendo, gostando...
Já te sigo... me segues?
AbraçO

António Jesus Batalha disse...

Ao passar pela net afim de encontrar novos amigos e divulgar o meu blog, me deparei com o seu que muito admiro e lhe dou os parabéns, pois é daqueles blogs que gostaria que fizesse parte de meus amigos virtuais.
Pois se desejar visite o Peregrino E Servo. Leia alguma coisa e se gostar siga, Saiba porém que sempre vou retribuir seguindo também o seu blog.
Minhas cordiais saudações, e um obrigado.
António Batalha.