28 de jul de 2015

Memória

a tua morte é o que mais preciso
hoje, não amanhã, apenas hoje.
que se despregue do meu corpo!
deixe-me desnudo na rua
não se atreva a oferecer-me um agasalho,
não estenda as tuas mãos;
preciso existir sozinho
sem a tua estúpida companhia!
por favor, te rogo:
_ dá-me a liberdade da tua morte!
se queres permanecer, permaneça,
mas não me visite outra vez.
não quero as suas brincadeiras
os seus rios, os seus cantos
nem mesmo as goiabas maduras
as mangas, as amoras,
quero a vida, com toda a contradição.
estranho, não pensei um dia pedir-lhe isto
antes de hoje, antes de agora
antes de habitar os teus negros olhos
e sentir-me perdido,
por isso necessito da tua morte.
o teu grito de partida será para mim um alívio
última oportunidade
para os meus passos inaugurarem
alguma chegada.


Sândrio Cândido

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