17 de nov de 2015

para Júnia Fugimoto  

mamãe, papai,
que saudade é essa que levo dentro de mim?

bendita seja a voz das lavadeiras
lá no fundo do cansanção
rio pequeno grudado no peito
sol quente, lapas grandes
a gente batia as roupas antigas
sem saber que estávamos a lavar o coração

Jequitinhonha, fanado, cansanção
cheiro gostoso de biscoito de goma
acarajé sobre a mesa
café quentinho antes do amanhecer
frango caipira, canjiquinha
chá de amendoim e farofa de andu

canoa velha canoa
traz seus remos outra vez
vem mim ajudar atravessar esse mundão

pra pegar os passarinhos selvagens
armei arapuca na linguagem
trancei palavra por palavra
gastei  a mata de silabas
tragadas pelo meu pensamento
depois deitei debaixo das cagaiteiras
fiquei ouvindo o sabiá
fiz um ninho  na minha garganta
pra aconchegar as andorinhas
casa pequeninha é a que o João de barro
fez dentro do meu coração

garricha não se pode desmanchar a casa
sete anos de maldição
igual quando não tapamos os santos
é tanta coisa neste mundo meu São João
livrai-nos Deus de ficar sem lágrima
quem dera fosse poesia capaz
de devolver -nos o perdão

roça de milho e abóbora
lava mãe, capina pai, borda vovó
folia de reis tá quase chegando
só não esqueçam de olhar a rodagem
pode ser amanhã divagarzinho
fumaça sujando o telhado
ciranda de comadres
compadres fumando cigarro de palha
viola descampando o tempo
feijão no fogão de lenha

bendito seja o rosário
nossa senhora dos homens pretos
não nos deixe faltar o tutu
menina preta do sertão
cá pra nós, flor de laranjeira é tudo
goiaba com  maracujá
saudade deslinhando o peito

a gente não é triste por natureza
é que nascemos com os olhos bestaiados
pelo orvalho que levamos adentro.

Sândrio Cândido


2 comentários:

Raquel Costa disse...

Meu amigo, que saudades de te ler! Espero que esteja sempre bem. Um abraço, raquel

Júnia Fugimoto disse...

Sou tão apaixonada por tudo que escreve, principalmente essa obra <3
Gratidão sempre.