11 de dez de 2015

As crianças incandescentes

"Através do teu coração 
passou um barco
Que não pára de seguir sem
ti o seu caminho" 

Sophia de Mello Breyner


dói-me no coração as ruínas da infância
machado beijando o tronco
facão aconchegando os ramos
os primeiros cortes

os dedos machucados teimam em seguir

debaixo do tempo crianças incandescentes gritam
adormecidas na esperança de uma salvação
favos de luz perdidos nos escombros

em busco da flor soterrada nos espelhos
desço aos monturos,
levo em mãos uma lampada desfigurada

é noite por dentro do pensamento
paisagem alguma consegue perdurar
ainda não sei  perdoar o tempo

aqui estou
errante no século,
longo é o trajeto a desnudar

visto-me com a roupa da insônia 
faço do silêncio um barco

filho da época,
nado em busca de um porto
estou a margem  de um corpo ausente

espero as mãos desenfaixarem a boca 
a carne capaz de rasgar a alma.

Sândrio Cândido



Um comentário:

Gabriel disse...

"estou a margem de um corpo ausente" simplesmente genial esta construção.

Visitando seu blog pela primeira vez e encontro boa poesia, voltarei mais vezes.
Abraço!

http://devaneios-irreais.blogspot.com.br/